São Paulo A crise do Ueno Bank, no Paraguai, levou à renúncia do presidente do Banco Central do país e, nesta quinta-feira (5), ao pedido de renúncia do presidente Santiago Peña. O colapso do banco levantou questionamentos sobre as semelhanças com o escândalo do Banco Master no Brasil. Os dois episódios envolveram suspeitas de fraude financeira, relações entre banqueiros e políticos e investigações de autoridades em diferentes esferas. Apenas nesta semana, o caso levou à prisão de oito pessoas ligadas à instituição, a protestos em frente a agências bancárias e ao anúncio de fechamento do banco, com o início do processo de resolução —semelhante à liquidação extrajudicial aplicada em bancos no Brasil. Vista aérea da sede do Ueno Bank, em Assunção (Paraguai) - Cesar Olmedo - 03.nov.26/Reuters Na terça (3), foi feito o anúncio da renúncia do presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo, nomeado por Peña. O presidente paraguaio foi investidor da holding controladora do Ueno até março de 2025, e o presidente do BC paraguaio havia comandado a financeira que deu origem ao banco —gerando questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse na fiscalização do banco. Embora tenham características diferentes, o caso apresenta similaridades com o escândalo bilionário do Banco Master, de Daniel Vorcaro, liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. VEJA AS SEMELHANÇAS ENTRE O BANCO MASTER E O UENO BANK O DONO DO UENOALTO CRESCIMENTO EM POUCO TEMPO EMPRÉSTIMOS PARA EMPRESAS DO PRÓPRIO GRUPO A CIRCULAÇÃO DO DINHEIROBALANÇOS INFLADOS E INSOLVÊNCIA DINHEIRO PÚBLICO E DE APOSENTADOSRELAÇÕES POLÍTICASREGULADOR SOB SUPEITA PRISÕESO TAMANHO DOS BANCOSO DONO DO UENO Federico Miguel Vázquez Villasanti tem 36 anos. É fundador do Ueno e preside o Grupo Vázquez, conglomerado de 28 empresas de bancos, tecnologia, turismo, pecuária e mídia. Até abril, ele detinha o controle de 75,94% do grupo e está na terceira geração de uma família de comerciantes. O pai fundou em 1984 a Credicentro, uma financeira de pequenos empréstimos. Além do banco, o grupo controla a itti, empresa de tecnologia que opera os sistemas do Ueno e vende serviços ao governo, e a Vinanzas, especializada em cobranças de dívidas. As duas estão no centro das investigações. Antes da quebra, Vázquez era tratado como prodígio do mercado. A revista econômica Plus o escolheu como personagem do ano em 2024, e a Forbes Paraguay o retratou como um triatleta de Ironman que leva ao banco a mentalidade do atleta de alto rendimento. Como Vázquez, Daniel Vorcaro, 43, era um banqueiro jovem e em ascensão, sem passado em banco tradicional, que construiu em pouco tempo uma instituição com peso econômico. ALTO CRESCIMENTO EM POUCO TEMPO O Ueno foi lançado em fevereiro de 2022, depois que o BCP (Banco Central do Paraguai) aprovou a compra da Financiera El Comercio pelo grupo Vázquez. Em 2024, absorveu o Visión Banco. O banco afirma ter conquistado mais de 60% dos adultos paraguaios como clientes. A instituição abriu dezenas de agências luxuosas e promoveu uma campanha de marketing onipresente, que incluiu um patrocínio à seleção nacional de futebol. Controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, o banco passou de uma fintech local a uma instituição de médio porte em poucos anos. Em março, o Ueno emitiu US$ 350 milhões em bônus no exterior, apontada pela Bloomberg como a maior emissão corporativa da história do país. No Brasil, a expansão do Master também ocorreu em poucos anos. Vorcaro comprou uma participação no Banco Máxima em 2017, assumiu o controle da instituição em 2019 e a rebatizou como Master em 2021. Uma das principais estratégias de crescimento foi a captação de recursos por meio da venda de CDBs com remuneração elevada e a utilização do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) como uma fachada de proteção ao investidor. Em agosto de 2025, o banco oferecia papéis com retorno de até 120% do CDI, taxa bem acima da média de mercado. EMPRÉSTIMOS PARA EMPRESAS DO PRÓPRIO GRUPO É o ponto mais parecido com o Master. Segundo o jornal ABC Color, o Ueno direcionou cerca de US$ 146 milhões a três empresas ligadas ao grupo em sete meses. A lei paraguaia limita esse tipo de crédito a 20% do capital regulatório e a Fiscalía (o Ministério Público local) afirma que os empréstimos foram feitos sem garantias reais, apenas com a assinatura do tomador. Algumas das empresas foram desligadas do grupo e transferidas a ex-gerentes e funcionários do Grupo Vázquez, entre eles uma chefe de RH. Segundo a investigação, os vínculos societários continuaram. A CIRCULAÇÃO DO DINHEIRO No Master, como mostraram as investigações até aqui, fundos ligados ao grupo compravam e inflavam ativos do próprio banco. No Ueno, o mecanismo documentado até o momento aponta a venda de uma carteira com créditos podres e acima do limite, por US$ 74 milhões, para a Vinanzas S.A., empresa do grupo. Segundo o BCP, o dinheiro usado no pagamento saiu de bônus emitidos por empresas do próprio grupo O Banco Central do Paraguai também descreve um circuito fechado, com o dinheiro emprestado pelo Ueno passando por empresas do grupo, como itti, Redisa, Redipro e Vinanzas, e voltava aos tomadores para quitar as parcelas. BALANÇOS INFLADOS E INSOLVÊNCIA O BCP concluiu que o índice de solvência do Ueno estava abaixo de 50% do mínimo exigido. A crise estourou em 29 de outubro, quando o banco avisou o BCP que não conseguiria recompor cerca de US$ 70 milhões do encaixe legal (a parcela dos depósitos que o banco é obrigado a deixar parada no BC, equivalente ao depósito compulsório no Brasil). O balanço de 2025 registrava cerca de US$ 125 milhões, em bens intangíveis (software, basicamente), o equivalente a 35,9% do patrimônio. O real faturamento das empresas do grupo e como eles inflavam os ativos do banco são questionados por um deputado governista, Mauricio Espínola. O tamanho do rombo ainda não foi divulgado. DINHEIRO PÚBLICO E DE APOSENTADOS Os depósitos do governo do Paraguai no Ueno subiram depois da posse de Peña, para cerca de US$ 869 milhões —algo em torno de 29% dos depósitos do banco em junho, segundo a Bloomberg. O IPS, a previdência estatal, tem US$ 355 milhões aplicados no Ueno, que paga 32 mil aposentados. No Brasil, o paralelo é o BRB, banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal, que comprou carteiras do Master avaliadas inicialmente em R$ 17 bilhões. Desse total, cerca de R$ 12,2 bilhões correspondiam a títulos sem lastro em operações reais. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesSegundo a PF, a fraude envolvia a venda de CCBs (Cédulas de Crédito Bancário) falsas, derivadas de empréstimos consignados inexistentes. Os créditos teriam sido gerados pela Tirreno, empresa de fachada criada em dezembro de 2024 e controlada pela Cartos (Sociedade de Crédito Direto). Regimes próprios de previdência de servidores também aplicaram em papéis do Master. Com dificuldades para sustentar o crescimento, o Master havia aceitado uma proposta de compra pelo BRB em março de 2025. Em setembro daquele ano, porém, o BC rejeitou a operação. Em junho deste ano, o novo presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, afirmou que a instituição abriu mais de 20 processos para apurar o envolvimento de funcionários nas operações fraudulentas com o Master. No Brasil, os aposentados entraram no caso por outra ponta, já que um dos motores do Master foi o Credcesta, cartão de crédito consignado com serviços como desconto em farmácias e auxílio-funeral, levado ao banco por Augusto Lima, um dos sócios de Vorcaro. Após mudanças nas regras do consignado em 2022, durante o governo Bolsonaro, os contratos do Credcesta no INSS saltaram de 104,8 mil para 2,75 milhões em 2024. O próprio INSS apontou falhas graves em mais de 250 mil contratos de consignado do Master com aposentados e pensionistas, inclusive empréstimos concedidos sem validação de identidade. As queixas incluem empréstimos não reconhecidos, cobranças indevidas e dificuldade para quitar ou cancelar contratos. RELAÇÕES POLÍTICAS A ligação entre os controladores do Ueno, o presidente paraguaio e o ex-chefe do BC levantou questionamentos sobre a influência política no caso. Na casa de Vázquez, o Ministério Público apreendeu uma planilha com estratégias para vencer licitações que somavam mais de US$ 200 milhões. No Brasil, o caso Master também chegou a políticos e integrantes de diferentes esferas do poder. Ao fim do primeiro inquérito, a Polícia Federal indiciou 15 pessoas, entre elas o próprio banqueiro Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL), foi alvo de busca e apreensão. O candidato derrotado à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) também teve seu nome associado ao episódio após a divulgação de conversas com Vorcaro sobre o financiamento do filme Dark Horse, que conta a trajetória de seu pai, Jair Bolsonaro. O escândalo também envolveu nomes do STF (Supremo Tribunal Federal), como os ministros Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux, que apareceram em diferentes desdobramentos relacionados ao caso. REGULADOR SOB SUSPEITA Carlos Carvallo comandou a Financeira Ueno, que deu origem ao banco, até assumir o BCP em 2023. Ele renunciou no dia da intervenção, e outro diretor, Marco Aurelio González, saiu depois. Segundo relato de Carvallo, a preocupação com os créditos a empresas ligadas começou em 5 de junho, mas a intervenção só veio em novembro. O BC paraguaio tem autonomia, mas não blindagem. Pela lei orgânica local, o BCP é um órgão técnico com autonomia administrativa, financeira e normativa. Os diretores, porém, são indicados pelo Executivo e precisam de aval do Senado, com mandatos escalonados e um diretor nomeado por ano. O pedido de renúncia de Carvallo por Peña expôs essa fragilidade. No Brasil, a autonomia é mais robusta desde a Lei Complementar 179/2021, que confere aos diretores mandatos fixos e não coincidentes com o do presidente da República. Apesar das pressões, o Banco Central brasileiro conseguiu contornar dúvidas sobre sua fiscalização no caso Master. PRISÕES A Fiscalía abriu processo contra Miguel Vázquez e outras 26 pessoas por conduta indevida em situações de crise, lesão de confiança (semelhante à gestão fraudulenta), tentativa de estelionato e irregularidades nos livros contábeis. Foi pedida a prisão preventiva de Vázquez e prisão domiciliar com tornozeleira para outros sete diretores, além do bloqueio de bens de executivos e empresas acionistas –como aconteceu com Vorcaro, seus sócios e familiares. O TAMANHO DOS BANCOS Em dinheiro, o Master era maior, porém o Ueno tinha mais peso no país. O conglomerado Master chegou a R$ 86,8 bilhões em ativos em 2025, após multiplicar o balanço por oito em quatro anos, segundo levantamento do Dieese com dados do Banco Central. Quando foi liquidado, representava só 0,57% dos ativos e 0,55% das captações do sistema financeiro brasileiro —o que levou o BC a afirmar que a quebra não trazia risco para o sistema financeiro do país. O Ueno fechou 2025 com cerca de US$ 3,2 bilhões em ativos, segundo a classificadora Fix SCR, afiliada da Fitch. Mas detinha 5,9% do crédito e 8,9% dos depósitos do Paraguai, e era o quinto banco privado do país nos dois quesitos. O Master tinha 1,6 milhão de credores, menos de 1% da população brasileira. Já o Ueno, tinha 2,9 milhões de clientes, cerca de 63% dos adultos paraguaios. Os clientes dos bancos também eram diferentes, sendo que no Master o investidor estava atrás de um CDB com rendimento acima do mercado, enquanto o do Ueno era um banco de uso diário. Segundo a associação de importadores e varejistas do Paraguai, dois terços das transações eletrônicas nas grandes lojas passavam pelo Ueno. O fechamento do banco deixou o comércio em semiparalisia.
Veja em dez pontos as semelhan�as e diferen�as entre Ueno Bank e Banco Master
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