Depois da descoberta do envolvimento de instituições financeiras e fintechs com o PCC e do escândalo do Banco Master, a reputação da avenida Brigadeiro Faria Lima, que cruza bairros nobres como Pinheiros, Jardim Paulistano e Itaim Bibi, ficou manchada. Se antes ela só exibia prosperidade, passou a mostrar também um lado obscuro. Sua opulência, porém, não se abalou. Os negócios continuam florescendo, os farialimers seguem ganhando muito dinheiro e milhares de bicicletas circulam por sua excelente ciclovia. Principal centro financeiro de São Paulo, a avenida, na zona oeste, se chamava rua Iguatemi e ocupava uma área pantanosa e de chácaras nas proximidades do rio Pinheiros. Estava dentro dos domínios da família de Leopoldo Couto de Magalhães, dona da chácara Itaim, e ligava as ruas Joaquim Floriano e Pinheiros. Não se sabe o período exato de sua abertura, mas se calcula que tenha sido nos primeiros anos do século passado. Em 1915, a Companhia City inaugurou o Jardim América, e a rua Iguatemi estabeleceu os limites do novo bairro planejado. Cinco anos depois, o antigo clube Germânia, hoje Esporte Clube Pinheiros, criado por alemães, adquiriu uma área que pertencia à chácara Itaim. Foi o prefeito José Vicente Faria Lima quem decidiu alargá-la em 1965, quando assumiu o governo. O objetivo era desafogar o trânsito da região cada vez mais intenso. Vários imóveis foram desapropriados e demolidos, e a via começou a ganhar uma nova configuração. As obras se prolongaram até 1970, quando a rua Iguatemi ganhou o nome do ex-prefeito, falecido um ano antes. Faria Lima seguiu carreira militar na aviação e se formou na Escola de Engenharia Aeronáutica em Paris, na França, e, durante seu mandato, abriu e executou obras em avenidas como 23 de Maio, Cruzeiro do Sul, Rubem Berta e nas marginais Tietê e Pinheiros. Ainda no seu governo foi inaugurado, em 28 de novembro de 1966, há 60 anos, o primeiro shopping center da cidade, o Iguatemi, idealizado pelo engenheiro Alfredo Mathias, que se inspirou nas grandes estruturas comerciais que já existiam nos Estados Unidos e concentravam em um espaço fechado e unificado lojas, serviços e lazer. Na década de 1970, a avenida passou a receber edifícios comerciais de pequeno porte, mas ainda mantinha um perfil residencial. Em 1995, porém, iniciou-se sua grande transformação com a polêmica Operação Urbana Faria Lima, aprovada pela Lei 11.732, em 14 de março de 1995, no governo Paulo Maluf. A lei estabeleceu um suposto programa de melhoramentos públicos que a interligou com as avenidas Pedroso de Moraes, Presidente Juscelino Kubitschek e Hélio Pellegrino. Hoje ela tem 4,6 km de extensão. A operação urbana permitiu também que os donos de imóveis no entorno da avenida pudessem construir mais do que as regras de zoneamento permitem. Isso possibilitou a construção dos prédios mais altos que hoje se veem na avenida e atraiu para a região grandes empresas e bancos. Em 2004, uma nova lei, também controversa, a Operação Urbana Consorciada Faria Lima, revogou a anterior e gerou muitos questionamentos relacionados ao uso do solo, à especulação imobiliária e ao uso dos recursos públicos. Em 2024 houve mais uma revisão da lei. O que se viu foi um processo de gentrificação, com a expulsão de moradores de classe média, a valorização exponencial dos imóveis e a proliferação de edifícios comerciais espelhados, principalmente no trecho entre as avenidas Cidade Jardim e Juscelino Kubitschek, ultrapassando os limites do potencial construtivo. Tudo isso, porém, ficou debaixo do pano e a Faria Lima, deixando para trás o centro velho e a avenida Paulista, se converteu no principal polo financeiro da cidade com seus vícios e virtudes. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
V�cios e virtudes na avenida Faria Lima, em S�o Paulo
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