Recentemente, um cliente de 59 anos me procurou para discutir o valor de uma reforma em seu imóvel. Ele mora em um apartamento avaliado em cerca de R$ 2,25 milhões e gostaria de investir aproximadamente R$ 180 mil para modernizá-lo. A dúvida parecia simples: esse investimento vale a pena? Quando o assunto é dinheiro e o valor envolvido é relevante, raramente existe uma resposta simples. Quase toda decisão financeira exige abrir mão de alguma outra possibilidade; como em um cobertor curto, ao puxá-lo para um lado, inevitavelmente outro ficará descoberto. Quando pensamos em uma reforma, é natural comparar seu custo com o valor do imóvel. Nesse caso, R$ 180 mil representam cerca de 8% de um apartamento de R$ 2,25 milhões. À primeira vista, pode parecer um investimento adequado. Mas essa não é a comparação que realmente importa. Além do apartamento, este cliente possui aproximadamente R$ 2 milhões em aplicações financeiras. Esse é o patrimônio financeiro que ele terá para complementar sua aposentadoria. Como sempre contribuiu para o INSS pelo valor mínimo, sua renda previdenciária será limitada. Na prática, serão justamente esses investimentos que precisarão financiar boa parte do seu padrão de vida nas próximas décadas. Perceba como a decisão muda de perspectiva. Os R$ 180 mil não sairão apenas da carteira de investimentos. Eles sairão da renda futura que essa carteira produziria durante toda a aposentadoria. Aos 59, o tempo para reconstruir esse patrimônio já não é o mesmo de alguém que ainda tem trinta anos pela frente. Cada retirada passa a merecer uma reflexão muito mais cuidadosa. Isso significa que ele não deva reformar o apartamento? Não. Significa apenas que a reforma precisa ser analisada pelo impacto que produzirá sobre sua renda futura, e não apenas pelo resultado estético ou pelo eventual aumento do valor do imóvel. Muitas pessoas acreditam que toda reforma é um investimento. Nem sempre é assim. Em muitos casos, ela apenas preserva o valor do imóvel, melhora sua liquidez ou torna a venda mais fácil. Isso significa que cada real investido não será recuperado integralmente no preço de venda, principalmente quando a obra envolve acabamentos muito sofisticados ou excessivamente personalizados. Por outro lado, se o imóvel estiver defasado em relação aos demais apartamentos do edifício, modernizá-lo pode ser uma forma de evitar sua desvalorização. Mas isso não significa ganhar, mas evitar uma perda. Nesse caso, talvez seja interessante avaliar se não vale vender antes de a desvalorização se tornar mais significativa e, assim, evitar perder dinheiro. Da mesma forma, adaptar a residência para oferecer mais conforto, segurança e acessibilidade pode fazer sentido para quem pretende permanecer ali por muitos anos. O problema é confundir uma decisão de consumo, ou seja, melhora de conforto, com uma decisão de investimento. Conforto tem valor. Qualidade de vida também. Patrimônio existe justamente para proporcionar bem-estar, mas esse benefício precisa ser colocado na balança ao lado do custo de oportunidade. O dinheiro utilizado na reforma deixa de gerar renda, justamente no momento da vida em que essa renda se torna mais importante. Agora imagine outro indivíduo com 45 anos, ainda trabalhando, com um apartamento de R$ 2 milhões, mas R$ 5 milhões aplicados. A mesma reforma de R$ 180 mil provavelmente teria um impacto menor sobre sua aposentadoria. Perceba que a resposta não depende apenas do imóvel. Depende da estrutura patrimonial de quem toma a decisão. É por isso que a pergunta correta nunca deveria ser "essa reforma vai valorizar meu apartamento?". A pergunta realmente importante é outra: depois dessa retirada, meu patrimônio continuará sendo suficiente para sustentar o padrão de vida que desejo durante toda a aposentadoria? Se a resposta for positiva, a reforma pode ser uma decisão adequada. Caso contrário, talvez seja melhor reduzir o projeto, executá-lo em etapas ou simplesmente adiá-lo. Uma reforma pode deixar a casa mais bonita e mais confortável. Mas nenhuma melhoria compensa descobrir, no futuro, que ela foi financiada com a tranquilidade da própria aposentadoria. E você? Faria a reforma ou manteria esse patrimônio para financiar sua aposentadoria? Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Vale a pena reformar seu apartamento perto da aposentadoria?
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.