Quando o dirigível Conde Zeppelin cruzou o céu do Rio de Janeiro em 1930, Manuel Bandeira estava se afogando num poço de amargura. Na tentativa de melhorar o humor do amigo, Mário de Andrade escreveu: "Vai ver o zepelim, Manu!". Esta história está no livro de cartas dos dois escritores modernistas, esgotado há anos, e no recém-lançado "A Trinca do Curvelo" (Ed. Todavia), que li na semana passada, durante minhas férias no Rio. A autora Elvia Bezerra mostra como uma rua do bairro carioca de Santa Teresa marcou a vida e a obra de Bandeira. Inspirada pelo livro, convidei uma amiga que andava tão desanimada quanto o poeta: "Vamos ver o zepelim?". Mas, em vez de admirar um dirigível futurista, fomos andar de bonde retrô. Subimos à tarde as ladeiras de Santa Teresa e terminamos a noite no samba. O programa foi tão bom que virou uma espécie de ritual nos dias seguintes, só trocando o samba por chorinho, mesas de bar e longas caminhadas. Quando deixei o Rio, ela já era outra. E eu também. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha De volta em casa, terminei o livro, mas segui obcecada com a passagem do zepelim pelo Brasil. Mergulhei nos arquivos do jornal e liguei para minha amiga para falar sobre curiosidades que encontrei em notícias de quase cem anos atrás. Ela, porém, veio com uma novidade maior. "Juntei minhas economias e estou indo para o Nordeste", me disse. Foi ver o zepelim baiano, a danada.
Vai ver o zepelim!
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