Uso de medicamentos contra obesidade por conta pr�pria � problema crescente de sa�de p�blica

Uso de medicamentos contra obesidade por conta pr�pria � problema crescente de sa�de p�blica

O uso de medicações para obesidade compradas pela internet ou importadas com procedência duvidosa e aplicadas por conta própria virou um problema de saúde pública. O alerta não é sobre uma determinada faixa etária. Vale para o adulto que quer perder quatro quilos antes de uma festa; para o adolescente com questões inerentes à idade e, no extremo mais grave, para a criança obesa que recebe uma injeção sem nenhuma indicação. O que une esses casos não é idade nem necessidade: é a ausência do que é necessário em qualquer tratamento seguro de saúde: diagnóstico, prescrição, procedência e acompanhamento. Vale começar pelo entendimento do que esses remédios de fato são. Os análogos de GLP-1, como a semaglutida e a liraglutida, imitam um dos hormônios que o próprio corpo produz no intestino para estimular a produção de insulina. A tirzepatida, mais recente, simula o GLP-1 e também o GIP (Peptídeo Insulinotrópico Dependente de Glicose), que tem função semelhante. Todas essas substâncias sintéticas reduzem o apetite, aumentam a saciedade e ajudam a controlar a ingestão alimentar. São tratamentos legítimos para uma doença crônica, a obesidade, que tem base biológica —não é uma questão de força de vontade. Tratar a obesidade como fraqueza de caráter ou falta de vaidade é parte do que nos trouxe até aqui. O estigma empurra as pessoas para soluções rápidas e escondidas, no contrabando ou pela internet, em vez de recorrerem ao cuidado de um profissional de saúde. Reconhecer a obesidade como doença é o que separa o uso responsável de remédios eficazes do improviso perigoso. Em adultos, o programa de estudos STEP mostrou perda média de cerca de 15% do peso corporal com a semaglutida, e os estudos SURMOUNT chegaram a cerca de 20% com a tirzepatida. É um avanço real, e é justamente por serem eficazes que esses medicamentos merecem respeito, e não a sua banalização. Ser legítimo, no entanto, não significa que seu uso é livre e irrestrito. Todo medicamento eficiente tem indicação, dose, contraindicação e efeitos adversos. E é exatamente isso que se perde quando uma substância assim vira produto de balcão. Caixa de surpresas O primeiro risco dos medicamentos adquiridos sem prescrição médica é o de não haver procedência. Uma medicação trazida na mala, sem registro na Anvisa e sem controle de transporte e armazenamento, não oferece segurança sobre o que há dentro dela. A pessoa não sabe a dose real que aplica, nem se o frasco corresponde ao rótulo. O mesmo vale para versões manipuladas vendidas sem o devido controle: sem rastreabilidade, não há como assegurar dose nem pureza. Nenhum benefício justifica esse risco. O segundo risco é a automedicação. Prescrever esses medicamentos exige um passo que a compra pela internet pula: o diagnóstico. É preciso avaliar se há de fato indicação, rastrear contraindicações, ajustar a dose de forma gradual e acompanhar a resposta. O acompanhamento não termina na primeira receita: envolve reavaliar tolerância, resposta e manutenção ao longo do tempo. Sem isso, efeitos gastrointestinais como náusea e vômito ficam sem manejo, e condições que desaconselham o uso passam despercebidas. Fora efeitos colaterais graves que podem aparecer, como pancreatites, infecções nos locais de punção ou sistêmicas e mesmo hipoglicemia severa, pela falta de controle na purificação da molécula ou maior concentração do princípio ativo do que está descrito no rótulo. Cuide-se Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar É aqui que entra a indicação clínica, que existe e é mais estreita do que a propaganda sugere. Em adultos, a indicação formal é para obesidade associada a uma complicação relacionada ao peso e sempre acompanhada de mudanças no estilo de vida. Não é para quem quer perder alguns quilos por estética. É oportuno fazer uma distinção que ajuda a entender quando tratar. O The Lancet Diabetes & Endocrinology publicou, no início de 2025, um parecer que estabelece novas formas de diagnóstico para o tratamento da obesidade, separando os pacientes, de acordo com a gravidade da doença, em dois grupos: obesidade clínica e pré-clínica. Na obesidade clínica, o excesso de gordura já compromete a função de órgãos e tecidos ou limita as atividades do dia a dia. É uma doença instalada, e tem indicação de tratamento imediato. Na obesidade pré-clínica, ainda não há essa disfunção, mas existe risco aumentado. Nesse caso, o acompanhamento médico é obrigatório, e o tratamento pode estar indicado dependendo do risco que aquele excesso de peso impõe à saúde da pessoa. Em nenhum dos cenários, porém, a resposta é um medicamento sem aprovação, comprado por conta própria. Tratar mais cedo a obesidade, quando indicado, não é o mesmo que tratar sozinho. Também é importante falar um pouco sobre os mais jovens, que são alvo da preocupação dos pais. A partir dos 12 anos há uso aprovado e baseado em evidência: a liraglutida foi aprovada pela Anvisa para essa faixa, apoiada no estudo SCALE Teens, e a semaglutida 2,4 mg foi aprovada em 2023, com base nos estudos STEP TEENS. A diretriz da Academia Americana de Pediatria de 2023 reconhece o uso de medicamentos quando indicado. Abaixo dos 12 anos há evidência inicial, como o estudo SCALE Kids, mas nenhum medicamento já foi aprovado. Ou seja, mesmo quando o tratamento tem lugar, ele é feito por especialista, com produto registrado e sob acompanhamento, o oposto da injeção comprada por conta própria. Por isso insisto no que considero a mensagem principal, válida para qualquer idade: esses medicamentos não são solução estética nem atalho de emagrecimento rápido. Eles tratam uma doença. Usada sem um plano de tratamento que se sustente, a medicação tende a decepcionar e a expor a pessoa a efeitos adversos sem o benefício correspondente. E, como qualquer tratamento de qualquer outra doença, esses medicamentos dependem de diagnóstico, prescrição, produto com procedência e acompanhamento médico. Retirar qualquer um desses quatro elementos transforma um tratamento eficaz em risco desnecessário. O debate público não deveria ser "medicação sim ou medicação não". Deveria ser sobre garantir que quem precisa tenha acesso da forma certa, e que ninguém, de nenhuma idade, seja empurrado para a fronteira ou para o comércio clandestino por falta de orientação. Vejo com frequência o outro lado dessa história, o de quem tratou a obesidade tarde ou mal. Obesidade merece tratamento. E o tratamento merece um médico. Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.