No Brasil, 84% dos universitários afirmaram usar ferramentas de inteligência artificial generativa nos estudos em 2025. Dois anos antes, eram 52%. Os dados são do AI Index Report 2026 do Instituto de Inteligência Artificial Centrada no Ser Humano (HAI), da Universidade de Stanford. No mesmo período, um levantamento de pesquisadores brasileiros mapeou 111 instituições públicas de ensino superior do país (69 federais e 42 estaduais), e encontrou apenas 27 documentos institucionais sobre o uso desse tipo de tecnologia em atividades acadêmicas. O descompasso entre o uso de ferramentas de IA por estudantes e a resposta das universidades não se restringe a instituições públicas. Um levantamento da Folha entre instituições de ensino superior do país que estão entre as melhores do Brasil, segundo a mais recente edição do RUF, revela estágios desiguais de regulação: enquanto instituições como a Unicamp e a UFMG já têm resoluções ou guias disciplinando o uso de IA, outras ainda estão consultando as suas respectivas comunidades acadêmicas, como a UFRJ. Esse cenário deve mudar ao longo de 2027. No início de setembro, o Conselho Nacional de Educação, órgão deliberativo do MEC (Ministério da Educação), aprovou um parecer que, se homologado, passará a exigir que todas as instituições de ensino superior adotem uma política de integridade acadêmica para o uso de IA em até 12 meses. Os principais desafios das regulações envolvem segurança da informação, responsabilização do usuário e adaptações pedagógicas. Na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o uso de IA generativa é regulado desde abril de 2026 por uma deliberação do Conselho Universitário. Pela norma, a universidade veda o compartilhamento de dados pessoais ou sigilosos em ferramentas não autorizadas pela instituição. Por meio de contratos com empresas como Google e Microsoft, a Unicamp assegura o não armazenamento ou utilização dos dados fornecidos para treinamentos das suas respectivas ferramentas. Quando estudantes utilizam ferramentas de IA na produção de um texto ou código, a Unicamp responsabiliza o usuário pelo conteúdo produzido. Como essa responsabilização será apurada na prática ainda está em discussão. Para Leonardo Tomazelli, coordenador do Centro de Referência em Tecnologias de IA (CrefIA) da Unicamp, a autoria continua inteiramente humana, independentemente do quanto a IA participe do processo. Fábio de Miranda, coordenador do curso de ciência da computação do Insper, vai além: a ideia de autoria "pura" estaria com os dias contados para produções técnicas e comerciais. Importaria cada vez mais a capacidade de editar e validar criticamente o resultado da interação com a IA. Victor Kayan, 23, aluno de ciência da computação do Insper, é de uma geração de estudantes que cresceu com a tecnologia disponível. Para ele, o uso de IA não seria um problema em si. "Eu sentiria minha autoria ameaçada caso eu gerasse algo [um texto ou código de programação] que eu não consigo entender ou explicar como funciona". A dimensão pedagógica do uso de IA tem preocupado Edgar Lyra, coordenador da área de compliance da PUC-Rio. Os textos que o professor diz receber hoje, no curso de Filosofia, não têm erros gramaticais ou ortográficos, e estão bem estruturados. "Não está errado o que o aluno está me entregando. Mas ele não está me dizendo nada [sobre o seu processo de aprendizado]". O Insper tem adotado medidas para impedir o uso de ferramentas de IA em provas, inclusive alterando o seu formato. Miranda diz que o curso de Ciência da Computação passou a aplicar mais avaliações offline, feitas no papel, com bloqueio de sinal de internet em algumas situações. Em provas realizadas no computador, há supervisão presencial e remota. Na USP (Universidade de São Paulo), uma minuta de resolução aguarda validação da Reitoria e do Conselho Universitário. Elaborada pelo Escritório de Transformação Digital e Inteligência Artificial, o texto permitirá o uso declarado de ferramentas de IA generativa por estudantes para apoiar atividades de aprendizagem e pesquisa. Em avaliações, o uso dependerá de autorização do docente, "de forma transparente e justificada". Atualmente, a USP oferece a disciplina "Inteligência Artificial na Vida Acadêmica", coordenada por Anarosa Brandão, professora da Escola Politécnica. Aberta a todos os estudantes da instituição, o curso busca fomentar o uso crítico, ético e transparente de ferramentas de IA no ensino superior. A Unip, primeira colocada entre as instituições privadas no indicador de mercado do RUF, incorporou à sua estratégia de empregabilidade a MarIA, ferramenta desenvolvida internamente, em uso desde maio de 2025. A partir do cruzamento de dados de desempenho acadêmico dos alunos com bases públicas do mercado de trabalho, como o Caged, a ferramenta indica carreiras e ações de desenvolvimento para seu corpo discente. A Unip diz ainda não ter dados que comparem a empregabilidade de quem usa a ferramenta com a de quem não usa. Para Lyra, cabe às universidades conduzir o debate sobre o uso de IA, sob o risco de o país navegar às cegas em uma transformação que já está em curso dentro e fora das salas de aula. "Se não for a universidade, nós estamos à deriva".
Uso de IA por estudantes avan�a mais r�pido que a regula��o da tecnologia pelas universidades
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