Depois de uma discussão, alguém abre o celular, conta o que aconteceu e pergunta a uma IA se agiu bem. Descreve o que ouviu, explica sua reação e recebe uma resposta que reconhece seu sofrimento e oferece argumentos para sustentar sua posição. "Você fez certo!" A pessoa sente alívio e segue com o conflito ainda sem solução, mas convencida de ter razão. Esse é o roteiro de histórias que ouço com frequência crescente no consultório e na igreja onde sou pastor. Elas me fazem pensar sobre o que procuramos quando pedimos conselho à inteligência artificial e sobre nossa disposição para ouvir algo que questione a maneira como compreendemos um conflito. Uma reportagem do New York Times abordou recentemente o uso de IAs como fontes de orientação para decisões e relacionamentos. Entre as pesquisas citadas está um estudo publicado na revista Science, que avaliou 11 modelos de inteligência artificial. Em comparação com respostas humanas, as IAs concordaram com os usuários 49% mais vezes, mesmo diante de atitudes prejudiciais a terceiros. Alguém que mentiu para conseguir uma promoção, por exemplo, pode ter sua conduta justificada pela pressão no trabalho, em vez de questionada. Essa busca por confirmação ignora um aspecto fundamental do trabalho de escuta. Seja na atuação de um psicólogo, de um líder religioso ou de um amigo, que não precisa de formação específica para acolher, ouvir exige mais do que reconhecer a dor. É preciso também examinar as interpretações que sustentam a compreensão dos acontecimentos. Isso exige atenção à postura corporal, ao olhar, às palavras e aos silêncios, ao histórico de comportamento e a elementos da comunicação humana que a inteligência artificial não consegue apreender plenamente. Mas há também algo importante a considerar sobre quem fala. Ao narrar uma discussão, escolhemos por onde começar, reproduzimos algumas falas, resumimos outras, interpretamos silêncios e atribuímos intenções. Fazemos isso sem perceber, influenciados pela memória e pelo desejo de preservar a imagem que temos de nós mesmos. Por isso, aconselhar alguém exige perguntar pelo que ficou de fora do relato e, às vezes, questionar suas interpretações. Isso ganha forma em perguntas: como a outra pessoa descreveria o que aconteceu? O que dissemos antes da resposta que nos feriu? Pelo que precisamos nos responsabilizar? Embora simples, esses questionamentos costumam encontrar resistência. "Você acha que eu estou mentindo?" é uma das perguntas que mais ouço quando questiono alguém sobre quão completa é sua versão dos fatos. Além de estar disponível na ponta dos dedos, ser mais barata do que a terapia e poder ser consultada a qualquer momento, a inteligência artificial apresenta outra característica: sua tendência à concordância. Ao reforçar a versão do usuário, alimenta a ilusão de que ele está sempre certo. Mas quem está sempre certo? Em um casamento, amizade ou outras relações de cuidado, somos ajudados por pessoas cuja compreensão dos acontecimentos pode nos levar a rever a nossa. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Na igreja, para reforçar essa ideia, recorro a uma interpretação da poesia bíblica sobre a origem da humanidade. Gênesis 2.18 diz que, percebendo que o homem estava só, Deus resolveu fazer para ele "alguém que o auxilie e lhe corresponda" (NVI). As palavras hebraicas ("ezer kenegdo"), traduzidas por "alguém que o auxilie", podem ser compreendidas como "uma ajuda contra ele". A lição é que precisamos de companhias que nos ajudem no exercício da alteridade, ou seja, a ver o mundo pela perspectiva de outra pessoa. Como psicólogo, não recomendo o uso da inteligência artificial como substituta da psicoterapia ou das relações humanas de cuidado. Buscar respostas que apenas confirmam nossas opiniões compromete a capacidade de reconhecer erros, assumir responsabilidades e enfrentar conflitos. Cuidar da saúde mental também exige disposição para ouvir o que precisamos, mesmo quando não queremos.
Usar IA como psic�logo, conselheiro ou terapeuta � m� ideia
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