O autor russo Liev Tolstói certa vez escreveu que "todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira". É uma das frases de abertura mais celebradas da literatura. Ursula K. Le Guin, no entanto, acha isso uma pataquada. "Que coisa mais ridícula de se dizer", afirma. "Que história é essa, Tolstói?" A fala dá conta da divertida irreverência dessa autora americana, conhecida por seu trabalho na ficção científica. Em entrevistas, Le Guin costumava dizer o que lhe dava na telha, criticando inclusive os colegas. Esse é o tom que o leitor encontra no livro "Ursula K. Le Guin: A Última Entrevista e Outras Conversas", lançamento recente da editora Relicário. O volume reúne uma série de entrevistas realizadas ao longo de décadas, incluindo as conversas que Le Guin teve com o jornalista americano David Streitfeld de 2015 a 2018, antes de morrer naquele ano. Com isso, a editora inaugura uma série de compilações de entrevistas que deve contemplar, num futuro próximo, as escritoras Toni Morrison e Octavia Butler. Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias Nascida em 1929 nos Estados Unidos, Le Guin teve uma longa e premiada carreira. É autora de clássicos como "A Mão Esquerda da Escuridão", de 1969, e "Os Despossuídos", de 1974. Le Guin enfrentou dois grandes desafios ao longo das décadas. Primeiro, o de ser uma mulher escrevendo em um meio que ainda hoje privilegia os homens. Segundo, o de escrever ficção científica, gênero historicamente tratado pelo mercado e pela crítica como de menor prestígio. Esses temas perpassam as sete entrevistas reunidas no livro, revelando o quanto o gênero —tanto o dela quanto o de seus livros— a impactou. "É muito mais difícil escrever do ponto de vista das mulheres", escreve. As convenções privilegiam os homens, que costumam ser os protagonistas. Le Guin também parecia se ressentir, de certo modo, de ter ficado reduzida ao rótulo de autora de ficção científica, não de ficção com "F" maiúsculo. "Publiquei como escritora de gênero quando gênero não era literatura", afirma. "Escrevi o que não era literatura. Paguei o preço." Sugere, inclusive, que alguns colegas venceram prêmios por serem homens e por escreverem "literatura séria", apesar de escreverem pior. Menciona Don DeLillo, que a derrotou no National Book Award de 1985 com "Ruído Branco". Le Guin concorria com o experimental "Always Coming Home", sem tradução no Brasil. A franqueza é uma das melhores coisas do livro. Como bem diz a introdução, os escritores nem sempre gostam de falar com jornalistas. Quando falam, é, por vezes, de maneira ensaiada ou contida. Le Guin, por outro lado, encarna a expressão "sem papas na língua". O francês Gustave Flaubert, celebradíssimo autor de "Madame Bovary"? É "um péssimo modelo para um escritor", afirma. O russo-americano Vladimir Nabokov, autor de "Lolita"? "Não significa nada para mim." Le Guin não poupa nem o americano Philip K. Dick, que também escrevia ficção científica. Diz que até gostava dele, mas mudou de ideia ao reler "O Homem do Castelo Alto". Pareceu-lhe um livro "desajeitado". Além disso, "a maneira como ele lidava com as mulheres era bem ruim". Sobram críticas até mesmo aos entrevistadores, vejam só. Um deles lhe pergunta como ela se sente em relação à tecnologia. "É uma pergunta tão ampla que cada resposta acaba soando como um biscoito da sorte", afirma. A contundência, porém, não parece vir da amargura. Como diz Streitfeld na introdução da última entrevista, "Le Guin ria com frequência", pois "o mundo a divertia". Por meio de suas respostas, é possível vê-la em casa, sorrindo para o entrevistador que a visita. Na conversa derradeira, de 2018, Le Guin fala sobre como deixou de escrever ficção. Fazia anos que não publicava. "Não havia mais um romance espreitando em algum lugar no fundo da minha consciência", escreve. Era "uma sensação muito estranha, como ter um poço e ele secar". O trecho é melancólico, ainda mais sabendo, agora, que ela morreria em breve. Mas Le Guin ainda pensava longe e profundamente. "É uma idade séria, 88. Se você virar os números de lado, são dois infinitos, um sobre o outro."
Ursula Le Guin desdenha de Flaubert e Tolst�i em entrevistas irreverentes
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