Urnas precisam refletir demandas do eleitor com mais de 70 anos

Urnas precisam refletir demandas do eleitor com mais de 70 anos

O Brasil está envelhecendo em uma velocidade acelerada que já transforma o mercado de trabalho, o consumo, as famílias e a economia. No entanto, há uma dimensão da mudança que ainda recebe pouca atenção: a participação política de uma população que vive mais e que será cada vez mais numerosa. Entre 2010 e 2022, enquanto o eleitorado brasileiro como um todo cresceu 15%, o número de eleitores com 60 anos ou mais avançou 74%. Cresceu, na prática, quase cinco vezes mais rápido. Essa mudança demográfica inevitavelmente chega às urnas —ou deveria chegar. Nas eleições de 2022, havia cerca de 15 milhões de eleitores com 70 anos ou mais no Brasil. Aproximadamente 8 milhões não votaram. Entre as mulheres dessa faixa etária, a ausência chegou a 64%. Há uma particularidade importante: a partir dos 70 anos, o voto é facultativo. Mas atribuir a elevada abstenção apenas a essa possibilidade legal seria simplificar demais o panorama. Ao longo dos estudos sobre longevidade conduzidos pelo data8, ficou evidente que há um componente de afastamento. Parte dessa população não se sente ouvida, representada ou contemplada pelas propostas apresentadas. Forma-se uma espécie de círculo vicioso: se as demandas dos mais velhos não entram no debate público, diminui o estímulo à participação; se esse eleitorado participa menos, também diminui a pressão para que suas demandas sejam incorporadas. Em sentido contrário ao envelhecimento do eleitorado, as eleições municipais de 2024 revelaram, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), uma mudança expressiva no perfil etário: a idade mediana dos eleitos, considerando prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, caiu de 56 anos, em 2012, para 46 anos, em 2024. Não se trata de defender que apenas pessoas mais velhas possam representar os interesses de uma sociedade longeva. O ponto é outro: à medida que cresce o peso demográfico e eleitoral dos maduros, as diferentes experiências e demandas precisam ganhar espaço equivalente no debate público. Uma população que vive mais também trabalha, empreende, consome, utiliza tecnologia, sustenta famílias e demanda cidades, moradias e sistemas de mobilidade preparados para vidas mais longas. Está posto que o envelhecimento populacional exige mais do que políticas para idosos. Dessa inquietação nasceu o "Movimento Voto 70+", campanha cívica e apartidária criada para estimular a participação eleitoral dessa população. Não se trata de orientar em quem votar, sim, do contrário: lembrar que milhões de brasileiros continuam tendo voz, interesses e capacidade de interferir nos rumos do país. Essa participação ganha relevância quando observamos a própria longevidade. Uma pessoa que chega aos 70 anos pode ter pela frente duas décadas ou mais de vida. As decisões tomadas hoje sobre cidades, trabalho, tecnologia, saúde, mobilidade, moradia e proteção social dizem respeito diretamente ao futuro dessa geração. Por isso, há também um desafio para quem pretende disputar as eleições de 2026. Não será possível compreender esse eleitorado recorrendo apenas a temas associados à velhice. Saúde, cuidado e Previdência são fundamentais, evidentemente. Os brasileiros mais velhos trabalham, empreendem, consomem, sustentam famílias, utilizam tecnologia e querem preservar sua autonomia. Precisamos ainda reconhecer que não existe uma única velhice brasileira. Gênero, raça, renda, escolaridade, território, condições de saúde e acesso à tecnologia produzem experiências radicalmente diferentes de envelhecimento. Políticas públicas construídas exclusivamente a partir da idade cronológica correm o risco de transformar uma população profundamente diversa em uma categoria artificialmente homogênea. Como especialista em longevidade e parte de uma geração que já ultrapassou os 60 anos, vejo uma contradição em vivermos a revolução da longevidade e, ao mesmo tempo, permitirmos que quem conquistou mais anos de vida desapareça das decisões coletivas. O Brasil já envelheceu —e a democracia precisa acompanhar essa transformação. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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