Eu não fiz campanha durante o primeiro turno. Não me mobilizei como poderia. Não que não estivesse falando sobre política. Acredito que a política atravessa tudo o que fazemos, o que somos, como existimos neste mundo. Mas não me esforcei além do que já faço normalmente. Com críticas à Lula (PT), mas cultivando um asco profundo por Flávio Bolsonaro (PL), fiz um vídeo aqui, uma coluna ali, falando sobre tudo o que sempre falo, sobre como vejo o mundo por meio destes meus olhos de mulher, de mãe, de brasileira. Eu nunca fui lulista. Há não muito tempo, me considerava inclusive uma pessoa mais à direita. Como muitos brasileiros, eu não era politizada. Minha conclusão sobre onde me localizava no espectro político era, portanto, fruto da opinião dos outros, de uma colcha de retalhos formada do berço em que nasci, da escola onde estudei, dos privilegiados círculos por onde circulei. Mas eis que a maturidade veio e, com ela, o pensamento crítico e a consciência, turbinados posteriormente pela ascensão do bolsonarismo, um movimento que prega a ignorância, a intolerância e o individualismo. Jair Bolsonaro (PL) subiu a rampa no ano em que me tornei mãe, e essa absoluta dicotomia entre o poder de criar vida e a política de morte do então presidente coroou meu processo de despertar, tornando-me um ser irremediavelmente político e irremediavelmente opositor ao bolsonarismo. Ainda assim, nas semanas que precederam o primeiro turno, mesmo diante de uma campanha lulista parada no tempo, não fiz tudo o que poderia. Deixei na mão deles, dos políticos e marqueteiros e estrategistas, a incumbência de salvar o Brasil das mãos de um candidato que representa tudo o que mais desprezo. E eis que chegamos ao resultado das urnas no dia 4 de outubro. Foi preciso chegar em segundo lugar no primeiro turno para que as crenças que já moravam em mim transbordassem para ação. Não de imediato, é verdade. Custaram 48 horas e uma virose para que minha desesperança pós-primeiro turno se transformasse em participação, em iniciativa. Assim como eu, vi milhares de pessoas da esquerda, do campo progressista, da direita democrática e do antibolsonarismo "acordarem" e tomarem para si a responsabilidade de derrotar Flavio. Seja por meio da conversa na rua, de um vídeo na rede social, de um papo com um familiar. Houve, claro, um elemento adicional fundamental para a organização dessa onda. André Janones (Rede-MG) não só arregimentou um exército de mais de 10 milhões de soldados, ele também foi capaz de trazer para 2026 a campanha de Lula. Mas a vitória foi do povo. Cada um fez o que pôde, usou suas vivências e ferramentas para convencer quem estava na dúvida. Vi senhoras de idade falando sobre os tempos de censura, vi mães de crianças atípicas falarem sobre a segregação de seus filhos durante o governo de Jair, vi filhos contarem sobre a perda de seus pais durante a pandemia. Eu, como mãe e mulher, fiz inúmeros vídeos sobre a ameaça que Flavio representava aos nossos direitos. E assim, construída a milhões de mãos, a vitória veio. Pela primeira vez na história do Brasil, um presidente foi eleito democraticamente depois de ter perdido no primeiro turno. Mas essa vitória não foi de Lula. Ela foi da mobilização do povo. Lula é um líder carismático, e isso não há como negar. Há boatos que circulam por Brasília de que membros da oposição evitam encontros pessoais com o presidente porque sabem que sairão da conversa dissuadidos do que foram lá fazer. Mas, se dependesse de Lula, essa vitória não teria acontecido. Nas últimas semanas parece que o campo antibolsonarista se lembrou de que democracia se faz com participação, na rua e, hoje em dia, nas redes. E lembrou que vitórias são construídas a partir de um esforço coletivo que precede e muito o digitar dos números na urna. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Uma vit�ria constru�da a milh�es de m�os
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