Talvez nem a eleição para papa tenha tantos rodeios e meneios quanto a de secretário-geral da ONU. Insistindo na comparação, até o momento não há sinais de fumaça sobre quem vai suceder o português António Guterres no posto, a partir de janeiro de 2027. O anúncio sairá em breve. Fala-se numa indicação a partir de dois quesitos inéditos: alguém da região da América Latina ou Caribe e uma mulher. Porém, tudo pode mudar nesta escolha um tanto quanto velada do Conselho de Segurança, com cinco membros permanentes e dez rotativos. Já foram feitas duas votações secretas, e sabe-se lá quantas mais virão. Na primeira, Rebeca Grynspan, economista e ex-vice-presidente da Costa Rica, levou a melhor. Na segunda, Carolyn Rodrigues-Birkett, ex-ministra da Guiana, passou à frente. E um competidor retardatário, o diplomata Olara Otunnu, de Uganda, exibe fôlego. Há outros competidores, entre eles, a ex-presidente chilena e ex-Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, candidata do Brasil e do México, e o argentino Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica. As consultas continuam até que alguém atinja nove votos favoráveis, sem nenhum veto dos membros permanentes. A partir daí, o nome pode seguir para referendo da Assembleia-Geral. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Hoje, tabelas internas e não oficiais, divididas em votos de encorajamento, desencorajamento ou "sem opinião", lembram pesquisas eleitorais, numa disputa em que novos nomes ainda podem surgir. Observadores anotam tudo, até mudanças súbitas nos perfis dos candidatos na Wikipedia. Por exemplo, procura-se um tópico intitulado "Controvérsias" na biografia de Grynspan. Nem tão emocionante, porém crucial, é pensar no que se espera de quem comandará a organização. Guterres deixa o posto após enfrentar pandemia, guerras, limpezas étnicas, autocracias. É inegável seu esforço para promover a reforma interna da instituição. Em 80 anos, a ONU acumulou milhares de mandatos; parte deles caducou, e agora o órgão amarga cortes orçamentários dramáticos. O secretário-geral fez muito, mas talvez frustre pelo que deixou de fazer, como empregar todos os meios de evitar o extermínio na Faixa de Gaza. Não à toa tem sido lembrada a atuação de Kofi Annan no Timor Leste no final dos anos 1990. Ele liderou as tratativas para libertar este pequeno país do jugo indonésio. Mobilizou o olimpo ao se valer do Art. 99 da Carta da ONU: "O secretário-geral pode chamar a atenção do Conselho de Segurança para qualquer assunto que, em sua opinião, ameace a manutenção da paz e da segurança internacionais". Não atuou como bombeiro. Foi além. Nesta semana circulou um manifesto de Graça Machel, líder africana que lutou pela independência do seu país, Moçambique, ex-ministra da Educação e intelectual respeitada. Machel pede que a Assembleia-Geral, com seus 193 Estados-membros, não seja apenas o carimbo da escolha final do Conselho. Isso não é multilateralismo, diz ela, assim como eleger uma mulher para o posto de Guterres não é altruísmo. Se for anunciada a primeira secretária-geral, corrige-se uma injustiça histórica. Alguém duvida que, em oito décadas, mulheres notáveis poderiam ter liderado, e renovado, a ONU? Deixo a pergunta no momento em que morre, aos 92 anos, a jornalista e ativista americana Gloria Steinem. Ícone da beleza, do feminismo e da modernidade, ela jamais duvidaria disso. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Uma mulher � frente da ONU seria o fim de uma injusti�a hist�rica
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