Uma guinada de 360�

Uma guinada de 360�

Se você procura nesta crônica algum insight sobre os resultados eleitorais do último domingo (4), pode virar a página ou dar scroll. Desde 2013, encaro nossa irrealidade política tão perplexo quanto o David Luiz frente ao Golias do ataque alemão. Ofereço aos patrícios, portanto, apenas minha sincera perplexidade. Não toda, claro. Minha perplexidade diante (atrás e dos lados) dos desrumos nacionais e globais é tanta que não caberia numa crônica —nem na Baía da Guanabara. Tocarei aqui apenas na ponta de uma agulha sobre o iceberg do meu espanto. Qual seria esta estalagmite gelada a furar a bolha da minha segurança? A frase de que o voto nos Bolsonaro e seus congêneres é um "voto de protesto" ou um "voto pela mudança". Sem querer me arvorar pelo terreno da filosofia, ouso afirmar que se protesta contra "o que é", contra "o que está". Por exemplo: diante de uma fábrica de cosméticos que injeta esmalte nos olhos de coelhos, manifestantes se insurgem contra testes em animais. Seria estranho se, por exemplo, surgissem ativistas do Peta vestidos de coelhos ensanguentados com faixas "Abaixo testes em animais!" numa plantação de café. Pois onde os supostos eleitores revoltosos veem a "ditadura de esquerda", "a ideologia de gênero", "a mamata da Lei Rouanet", eu só vejo cafezais. Eu digo olha, olha, é um pé de café! E eles dizem, não, não, olha lá no alto! Aquela ponta emborrachada! É um cafezal de piroca! Não, amigo, não existe cafezal de piroca, isso é uma mentira que surgiu dos esgotos da internet! Mas de que adianta? Faço parte da rubra corja que usa a Lei Rouanet para plantar cafezais de piroca, cafezais gayzistas, cafezais maconhistas, cujo fim é acabar com a tradicional família cafezística brasileira. Tento mostrar que não existe esse exército ideológico da Lei Rouanet. Sabem quem foram os artistas que mais receberam dinheiro desta lei em 2025? Primeiro lugar, Gusttavo Lima, R$ 52 milhões. Segundo, Bruno e Marrone, R$ 45 milhões. Terceiro, Leonardo, R$ 42 milhões. Entre os dez primeiros, só dá "cidadão de bem", não tem um Chico Buarque, um Gregório Duvivier. A lista saiu não num zine mimeografado pelo Jones Manoel, mas na Veja. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha "O Brasil é muito frouxo com bandido, por isso eu votei no Derrite." Derrite foi expulso da Rota por ser violento demais. Isso equivale a ser expulso da Ku Klux Klan por ser racista demais. (Certeza que a pessoa neste exemplo hipotético teria votação recorde para qualquer cargo em nosso país —em nome da "liberdade de expressão", claro.) Pois bem, o Brasil "frouxo com bandido" tem uma das polícias mais letais do mundo. Mata cinco vezes mais do que a polícia americana e o triplo da polícia de 15 países do G20 —somadas. No ano passado, a letalidade policial subiu 5%. Foram 18 mortos por dia. Quem tá cansado da realidade brasileira na área de segurança, portanto, tinha que achar um candidato com o perfil do padre Júlio Lancellotti. Quem quisesse dar um voto de protesto contra os artistas que mamam na Lei Rouanet tinha que eleger, sei lá, o presidente do sindicato dos mímicos de Pindamonhangaba. E quem se preocupa com o abuso de crianças tinha que ser o primeiro a lutar pela educação sexual nas escolas: "conhecereis a verdade e ela..." —não era isso? Esqueça o exemplo dos cafezais, amizade. É pior. O eleitor brasileiro votou nos donos da fábrica de cosméticos que injetam esmalte nos olhos dos coelhos em nome da defesa dos coelhos —porque não aguenta mais tudo isso que tá aí! LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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