Uma fake news cat�lica

Uma fake news cat�lica

Será que Flávio quer mesmo tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil? Só essa formulação já deveria levantar um alerta: desde quando o Estado brasileiro, laico, determina que algum santo é ou não é "padroeiro" de nosso país? Ele não faz nada disso. Quem determina que Nossa Senhora Aparecida é padroeira do Brasil (junto com S. Pedro de Alcântara) é o Vaticano. A acusação contra Flávio se refere, na verdade, a um projeto de lei de quase 20 anos atrás. O projeto do deputado Victorio Galli, de 2007, se referia algo mais prosaico: alteração no texto da lei 1980 que institui o dia 12 de outubro como feriado de Nossa Senhora Aparecida. No texto dessa lei, ela é descrita como "padroeira do Brasil". O deputado queria que o texto mudasse para "Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos". O projeto já foi mal recebido na época e logo arquivado. De lá para cá, não houve qualquer tentativa de reviver esse projeto ou algo semelhante. E, no entanto, a cada ciclo eleitoral, a acusação de que algum candidato evangélico ou ligado a evangélicos quer "destronar Nossa Senhora" reaparece. Em 2014 a acusada foi Marina Silva. Em 2018 e 2022, Jair Bolsonaro. Em 2026, Flávio. É fácil encontrar posts de veículos de imprensa refutando essa fake news em eleições passadas. Vale notar que Jair Bolsonaro, quando presidente, não só não tirou os títulos da Virgem Maria, como assinou um "Ato de Consagração do Brasil a Jesus por meio do Imaculado Coração de Maria", em cerimônia que contou com reza do terço e canções marianas. Em 2026, vale o mesmo: não houve qualquer conversa de tirar títulos da Virgem Maria pelos Bolsonaro ou seus aliados. A celeuma foi inteiramente criada por acusações falsas. Ao que tudo indica, a primeira veio do perfil de um agitador de redes pró-Lula. Flávio não facilitou para seu lado ao acusar pessoas de dentro da CNBB de ter ajudado a espalhar a mentira. A própria CNBB, contudo, em sua nota repudiando a acusação de Flávio, reconhece a falsidade da alegação original: "Mentira não se combate com mentira."Haverá certa ironia cósmica se Flávio perder a eleição por conta de desinformação e de religião. Depois de tanta intolerância e mentiras vindas do lados deles, provam do próprio veneno. Deus escrevendo certo por linhas tortas? Aos seres humanos comprometidos com o Brasil, contudo, cabe escrever por linhas justas. Nossa Justiça Eleitoral tem sido bem clara nos últimos anos: em período eleitoral, fake news devem ser tiradas do ar. O ministro Flávio Dino não vê problema em atropelar a Justiça Eleitoral e mudar o entendimento da lei para beneficiar um lado político; liberou a mentira. Contra Flávio Bolsonaro, a liberdade de expressão se torna um valor absoluto. Nossa ordem constitucional e nossas regras eleitorais não podem variar conforme o interesse político dos ministros. É isso que está sendo feito, diante de nossos olhos, infelizmente sob os aplausos de pensadores, juristas e até jornalistas que até ontem rasgavam as vestes em defesa da democracia perante a suposta ameaça das fake news. Deus tá vendo; e as linhas vão entortar cada vez mais… LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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