O Rio não é para amadores —e mesmo os profissionais terão dificuldade. Mas há sim um caminho para uma guinada no estado. Essa é a principal conclusão da RioAgora.org, iniciativa apartidária que reuniu propostas para o estado fluminense, a partir de experiências que deram certo. Nos últimos meses, realizamos nove encontros temáticos, com mais de 40 especialistas, somados a uma ouvidoria pública, digital, para sugestões de políticas públicas, inspirada no projeto Engaged California, dos EUA. E, com uso de inteligência artificial de universo restrito, analisamos planejamentos estratégicos anteriores. O resultado é um plano de ação mínimo, muito focado, que será apresentado no próximo dia 20 de julho, no Museu do Amanhã, para candidatos a governador, senador e deputados federais e estaduais. O estado do Rio talvez seja o melhor exemplo brasileiro de uma tragédia administrativa. Tem a maior receita líquida per capita do sudeste, muitas universidades, turismo, cultura, ciência, portos, aeroportos, hospitais, trilhos a dar com pau, e uma marca global. E deu no que deu. Hoje é um estado bandido. Depois de duas décadas de má gestão, muita corrupção e políticas descontinuadas, o Rio chegou ao ponto em que quase ninguém acredita em promessas. E, de repente, não mais que de repente, fez-se um clarão de esperança. O governo interino de Ricardo Couto não tem tempo para refazer o estado, mas vem mostrando que isso é possível. Mais de 3.600 funcionários "fantasmas" foram demitidos, gerando uma economia estimada em R$ 230 milhões até dezembro. É apenas um começo, mas dá um ânimo. E é possível melhorar e muito –até porque as coisas estão bem ruins. Na educação, o Rio tem o terceiro maior gasto por aluno do país, mas é o penúltimo resultado no Ideb do ensino médio. Na segurança, o Rio tem o maior gasto do país: R$ 24,08 bilhões em 2025, um aumento de 50% sobre o orçamento de 2024. E o modo operante da polícia tem sido a chacina. Isso num estado onde o Ministério Público estadual deixa de denunciar 77% dos assassinatos, segundo o Sou da Paz. Na saúde, há 20.814 leitos SUS e 2.569 leitos de UTI SUS, mas o cidadão ainda se perde em filas; dos 18 hospitais estaduais, 14 estão na Região Metropolitana. Pela cidade do Rio ter sido capital federal, o grande Rio tem estrutura desde sempre –mas em 2021 era o estado com a pior atenção básica de saúde do Brasil, segundo o Instituto de Estudo de Políticas de Saúde (IEPS). No desenvolvimento econômico, em 2023 a indústria de transformação –um setor fundamental para o crescimento econômico e renda– gerava apenas 7,6% de valor adicionado bruto fluminense, contra 18,3% em São Paulo e 19,2% em Minas Gerais, segundo o IBGE. Por fim, no tema da integridade, o estado do Rio aparece em 17º lugar no país, no ITGP (Índice de Transparência e Governança Pública), de 2025. Há 20 anos, o Espírito Santo enfrentava uma crise semelhante. Lá, a sociedade civil —e, em especial, a iniciativa Espírito Santo em Ação— participaram da maior reviravolta institucional (para o bem) neste século, no Brasil. Uma virada histórica, que combinou liderança política, uma força-tarefa federal contra o crime e contra a corrupção, responsabilidade fiscal, gestão por resultados e, principalmente, mobilização social. O desafio pro Rio agora é transformar boas propostas em entrega contínua. E manter a sociedade civil de olho. Estudos anteriores da Casa Fluminense, Casa das Garças, Fase, Instituto Unibanco, Firjan e também de Cláudio Frischtak, Fabio Giambiagi, Mauro Osório e Maria Silvia Bastos Marques, se complementam a novas iniciativas como IEPS, EducAção e Instituto Leme. Para amarrar as entregas a RioAgora.Org propõe criar uma central de resultados, no gabinete do governador, para acompanhar prioridades, destravar obstáculos, cobrar prazos e dar transparência às metas –módulo similar ao adotado também por outros estados, como São Paulo e Minas Gerais. O Rio tem um belo futuro, se tiver gestão, combate à corrupção e cobrança social. O Espírito Santo é o maior exemplo de que isso é possível. Uma janela se abre no Rio, à espera de uma liderança. Como diria o Racionais, "é só saber chegar". E não basta ser "só no sapatinho". TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Um plano de a��o para o Rio de Janeiro
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