Quando, rompendo o pacto de silêncio dos ministros do STF, André Mendonça escancara a extensão das relações de Alexandre de Moraes com Vorcaro, ele esgarça o tecido de outro pacto, bem maior, costurado entre os três Poderes. Involuntariamente, talvez, seu gesto de transparência mina a conciliação pelo alto destinada a preservar o edifício de privilégios ilegais erguido nos governos Bolsonaro e Lula 3. A espada do impeachment levantou-se sobre os juízes de capa preta na hora em que, graças aos benditos vazamentos, emergiram os indícios da teia de negócios de Moraes e Toffoli com o Sistema Vorcárico. O STF reagiu ignorando os fatos, ameaçando os vazadores e, apostando no corporativismo, pela legalização dos benefícios pecuniários inconstitucionais da magistratura. Mas, sobretudo, ciente de que a melhor defesa é o ataque, o tribunal supremo avançou rumo às muralhas do castelo do Congresso. A cruzada cenográfica de Flávio Dino contra as emendas parlamentares nunca buscou destruir o poder dos parlamentares de subverter a ordem orçamentária. Sua finalidade era mostrar que o STF também possui uma espada letal, de modo a empurrar os rivais à mesa de negociação. A lei? Ora, a lei. Numa ponta, a impunidade absoluta dos juízes de capa preta mais os penduricalhos da magistratura. Na outra, a sacralização da prerrogativa dos congressistas de desviar dinheiro público a suas bases eleitorais. Selou-se a grande barganha por meio de um contrato de garantia futura: a aliança política entre a esquerda e o centrão, expressa na adesão de Hugo Motta e Davi Alcolumbre à reeleição de Lula. A extrema-direita foi convidada a juntar-se ao pacto das elites, pela adição de uma cláusula de anistia parcial e condicional. Mas a exigência maximalista do bolsonarismo de anistia irrestrita, um excesso inaceitável para o STF e o Planalto, travou o acordo e acelerou a marcha do centrão à candidatura de Lula. Flávio condenou-se a seguir sozinho, amparado por sua horda de fanáticos, confiando nos efeitos eleitorais da desmoralização geral das instituições. Todo o arranjo da conciliação das elites dependia, porém, da proteção de cada um dos protagonistas da captura estatal pelo Sistema Vorcárico. O manto do segredo judicial formou uma barreira de contenção ao redor de Flávio, permitindo-lhe proclamar que o caso Dark Horse "ficou no passado", e de Ciro Nogueira, líder parlamentar do escroque das finanças. O silêncio cúmplice dos juízes de capa preta operou como guarda-costas de Moraes e Toffoli. A prevaricação de uma PGR submissa ao STF, regada a uísque e charutos vorcáricos, fechou o perímetro de segurança. Agora, uma peça fundamental desabou. Na tripla condição de amigo do peito, conselheiro especial e advogado honorífico de Vorcaro, Moraes enriqueceu ao longo de poucos anos. Fim da linha: diante dos "sérios elementos de fatos" (apud Fachin), que se tornaram públicos, um percurso se completa. Mas há uma lógica implacável em curso: a queda de Moraes inviabiliza a proteção a Toffoli, Flávio e Ciro. E, sem ela, a sombra da ruína desce sobre o pacto dos Poderes. O patético contra-ataque de Moraes, que se destina a ocultar a questão de fato, é uma tentativa de salvar-se a si próprio e, no fim, de colar com saliva os fragmentos do cálice despedaçado. Não vai dar certo. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Um pacto em ru�nas
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