Quando, após derrotas consecutivas nas eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se convenceu de que não governaria um Brasil ainda bastante conservador, duas eram suas opções: estabelecer alianças programáticas com partidos centristas autônomos ou moderar seu posicionamento, deslocando a esquerda em direção ao centro. A escolha lulista —que o PT acatou, embora não preferisse nenhuma delas— foi a segunda. Nessa estratégia, o agora presidente reeleito concentrou esforços em políticas compensatórias, sem deixar de apoiar campeões empresariais nacionais. A atração de vices oriundos do grande empresariado para suas candidaturas, desde 2002, somada à expansão do Bolsa Família, ao controle da inflação e à elevação do salário mínimo acima dela, permitiu-lhe combater a miséria e a pobreza —ao mesmo tempo que consolidava seu domínio sobre o Executivo federal.Esse sucesso o tornou também o principal líder do centro, e não apenas da esquerda, à medida que centristas tradicionais deixavam a política e novos atores disputavam com Lula a hegemonia da moderação política, acusando-o de manter um perfil à esquerda que, de fato, já não correspondia inteiramente à sua atuação. Daí o pragmatismo lulista ter incorporado também conservadores ainda moderados, por meio da distribuição de cargos e espaços no governo sem vinculação programática, ampliando os riscos de corrupção na administração pública. Com os protestos juvenis de junho de 2013, motivados pela qualidade dos serviços públicos —negativamente comparados aos então recém-inaugurados estádios de futebol —, ficou exposta a fragilidade republicana da democracia de 1988. O problema, porém, não foi resolvido e, logo em seguida, as insatisfações foram apropriadas por vertentes reacionárias do conservadorismo, que convergiram em torno do carisma de Jair Bolsonaro. Sua continuidade política, inclusive em sua vertente golpista, só foi contida por uma frente democrática inédita nos padrões de compromisso político do lulismo.Nesse sentido, a reeleição de Lula já indica o papel que ele pode desempenhar na preservação da ordem democrática. Se as dificuldades eleitorais do primeiro turno evidenciaram o quanto seu governo havia sido politicamente estreito, sem valorizar efetivamente os centristas que o apoiaram em 2022, a também inédita virada eleitoral no segundo turno expressou a formulação, embora tardia, de um programa de governo. Medidas como o fim das bets, o fim da escala 6x1, as parcerias com microempreendedores individuais (MEIs) e prestadores individuais de serviços de transporte e a gratuidade dos transportes municipais ofereceram um horizonte de futuro imediato, capaz de aproximar progressistas, de esquerda ou não, e conservadores moderados. Ao fim do terceiro mandato presidencial, Lula formulou uma agenda para o quarto, com potencial para reunir diversos segmentos do espectro político brasileiro —inclusive setores da direita alheios ao reacionarismo. Cabe-lhe, afinal, demonstrar uma generosidade ideológica compatível com o programa delineado para o novo mandato.Para viabilizá-lo, inclusive diante de um Congresso Nacional no qual o bolsonarismo se expandiu, será necessário assumir essa agenda como plataforma mínima de um pacto político mais amplo em favor do não retrocesso nacional. Seu ministério deve funcionar como fiador das articulações entre lideranças de esquerda e moderadas, contribuindo para projetá-las nacionalmente e favorecer a formação de uma classe política brasileira mais comprometida com a democracia. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Um novo papel pol�tico para Lula
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