Nenhum candidato deve ser obrigado a participar de debates, nem deve ser punido, com a exibição do púlpito vazio, por exemplo, por causa disso. Participar ou não de eventos desse tipo é estratégia eleitoral. Menos aceitável, na minha opinião, é participar de debates com o objetivo de desmoralizá-los publicamente. Já vimos isso ocorrer inúmeras vezes. Em 2022, o tal padre Kelmon, que não era padre, se beneficiou da legislação eleitoral para tentar descaracterizar um evento em benefício de Jair Bolsonaro. Em 2024, na campanha à Prefeitura de São Paulo, Pablo Marçal usou um debate para provocar o caos e desequilibrar os adversários. Datena mordeu a isca e lançou uma cadeira em direção ao candidato. Superei a ingenuidade de achar que debates são necessários e úteis para o esclarecimento de ideias e apresentação de propostas. Mas não podem ser um canal de divulgação de mentiras. Há muito defendo a checagem de fatos em tempo real durante debates e entrevistas de caráter eleitoral. Há tecnologia disponível para fazer isso. A omissão dos canais de TV provoca um paradoxo: concessões públicas, que têm o compromisso constitucional de informar a sociedade, acabam ajudando a desinformá-la. A democracia fornece ferramentas para quem ambiciona destruí-la. As regras frouxas do debate na Band, no último domingo (18), permitiram que Flávio Bolsonaro (PL), em vários momentos, conseguisse desmoralizar o evento. No caso, na semana passada, das duas entrevistas à Globo dos candidatos, o problema foi de outra ordem. A emissora escalou Renata Lo Prete, a sua repórter e apresentadora mais bem aparelhada em matéria de política e jornalismo na TV, para questionar Lula e Flávio Bolsonaro. O tom de inquirição quase policial usado por Renata Vasconcellos e Cesar Tralli nas entrevistas com seis candidatos em agosto deu lugar, agora em outubro, a embates civilizados, dentro da boa prática do jornalismo. Renata fez perguntas objetivas sobre questões muitas vezes incômodas, apontando contradições ou omissões dos candidatos. Deu espaço para a exposição das respostas, tolerou algumas tergiversações e, em alguns casos, frisou detalhes do que Lula e Bolsonaro disseram, buscando não restar dúvida sobre as suas afirmações. Experiente e segura, Renata se portou de forma tranquila e educada, sem alterar o tom de voz diante dos dois candidatos. Ainda assim, os resultados das duas entrevistas de 40 minutos foram radicalmente diferentes.Renata perguntou sobre vários pontos incômodos para Lula, como rejeição, segurança, redução da maioridade, STF, direção da PF, relações de Lewandowski com Vorcaro, entre outros. Em alguns tópicos, ele não foi objetivo nas respostas, mas se ateve ao roteiro da jornalista. Flávio Bolsonaro, ao contrário de Lula, ignorou o roteiro da entrevistadora. Olhando para a câmera, e não para Renata, o candidato se dedicou a criticar e ofender o adversário, discursando sobre temas que não tinham nenhuma relação com as perguntas. Várias vezes Renata cobrou que Bolsonaro falasse de "fatos verificáveis", sugerindo que o candidato estava divulgando mentiras, mas não conseguiu evitar a propagação de muitas fake news. Mais grave, a cúpula da Globo recebeu Flávio Bolsonaro para almoçar algumas horas antes da entrevista. Não se divulgou o conteúdo de "visita institucional", mas o gesto deixou muita gente em dúvida sobre a isenção da emissora. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Um debatedor que conspira para matar o debate
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