O primeiro —e, provavelmente, penúltimo— debate eleitoral entre os principais candidatos ao Planalto ocorreu com grande atraso, a uma semana do segundo turno, e frustrou quem esperava um confronto de ideias, se é que alguém alimentava tal expectativa. O eleitor indeciso ou pendular teve, enfim, a oportunidade de assistir a um enfrentamento direto entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o incumbente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os oponentes pareceram mais empenhados em evitar algum deslize grave e produzir trechos a serem divulgados pelas redes sociais, em geral de ataques um ao outro. Nenhum deles, de fato, foi nocauteado por um erro brutal ou um desempenho pífio, ao estilo do que fez soçobrar a candidatura de Joe Biden após um debate com Donald Trump em 2024. A crônica política sempre relembra o duelo que derrubou Richard Nixon ante John Kennedy em 1960 —ou, no âmbito brasileiro, o encontro de 1989 entre o mesmo Lula e Fernando Collor, no qual a má apresentação do petista e sua exacerbação na edição televisiva posterior foram apontados como fatores que contribuíram para sua derrota. A realidade é que, num ambiente em que toda declaração ou atitude é metodicamente ensaiada, tais reveses podem acontecer, porém não são a norma. Se parece irrealista esperar que debates transcorram como discussões programáticas, os encontros travados entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT) na disputa paulista mostraram que é possível ao menos se aproximar disso. No caso da noite de domingo (18) na Band, o formato que permitia a circulação dos postulantes pelo palco destacou a agressividade cara a cara entre eles. Treinado na escola Donald Trump de nada responder e repetir mentiras e afirmações que nada tinham a ver com as questões, Flávio encurralou Lula de saída, apoiado numa entrevista concedida na véspera pela lobista Roberta Luchsinger, envolvida com o filho presidencial Lulinha em negociações sob investigação. O presidente se recuperou um tanto ao longo do embate, jogando no mesmo campo do rival, de resto dono de uma ficha de suspeitas robusta. A grosseria quase física não deixou de refletir a polarização radicalizada da vida política nacional nos últimos anos. Propostas e promessas foram enunciadas aqui e ali, de forma mecânica —nada capaz de aplacar incertezas que cercam as duas alternativas de poder. Como mostrou o Datafolha, Flávio e Lula estão em empate técnico, com vantagem numérica do primeiro. No total da amostra, há 6% de eleitores que declaram a intenção de votar em branco ou nulo, mais 2% de indecisos e 7% que admitem mudar de candidato até o dia do pleito. São todos números modestos, mas que, numa disputa acirrada e num pleito com elevada taxa de abstenção, tendem a ser decisivos nas horas derradeiras. editoriais@grupofolha.com.br
Um debate tardio e agressivo
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