Não vou entrar no mérito das qualidades e dos defeitos do filme "O Convite", em cartaz nos cinemas. Vou direto ao conteúdo, que parece estar gerando comoção desde o seu lançamento. O filme parte do ditado "casamento é como submarino, feito para afundar" e segue apostando na sua tese. Resta definir de que casamento estamos falando. Um casal se apaixona, ou seja, cada um projeta no outro expectativas infundadas e, se tudo der certo, ambos compartilham fantasias eróticas. Desse caldo inicial ficam as lembranças sexuais superlativas, passado que, sempre que as coisas desandam, retorna como promessa de futuro. Lembra como trepávamos dia e noite? Pois é, quem sabe um dia a coisa retorna... Já o amor é o que resta quando o engodo inicial da paixão cai por terra e vemos que o outro é apenas ele mesmo e não a promessa de redenção, sempre impossível de ser cumprida. Derrocada garantida e necessária pra quem quer arriscar um outro tipo de relação na qual a intimidade, a falibilidade e a assunção dos limites são parâmetros. Não se trata de videogame, não há mérito algum em mudar de fase, é apenas uma escolha com suas devidas perdas. Há quem prefira seguir de paixão em paixão, pagando o preço das intensidades que a superfície das relações permite e das dores que os rompimentos exigem. Há quem procure o que resta depois do incêndio e corra o risco dos relacionamentos mornos ou apagados. O casal do filme que transa em grande estilo (Norton e Cruz, impagáveis) está junto há um ano, mesmo tempo que o casal que está junto há décadas não transa. Não deixa de ser mais um dos clichês do filme, pois não se trata de uma cronologia simplista: paixões longevas e amores instantâneos também estão no cardápio das relações. Existem relacionamentos sofríveis mantidos à base de um bom sexo, e aqueles nos quais se vive bem sem muito investimento na área. O sexo revela o prazer que cada um está disposto a obter e oferecer ao outro, mas existem outras formas de troca. Quando o parceiro é usado como justificativa para minhas más escolhas e o ressentimento toma conta, o sexo pode se tornar amargo ou inexistente. Afinal, como dar prazer a quem é a fonte da minha infelicidade? Às vezes há um impedimento unilateral como depressão, velhice, doenças. Esses casos são interessantes, pois revelam como cada um entende o desejo do parceiro para além de si mesmo. Pretende condená-lo à sua própria condição? A relação é respeitosa, magnânima ou possessiva, controladora? Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha As alianças familiares sempre foram destinadas à transmissão do nome, dos bens e ao acúmulo de poder. Amor e desejo foram somados a essa equação muito recentemente e, avessos aos pragmatismos, causam o ruído esperado. Decorre daí a dúvida perene sobre se valeria abrir mão da satisfação pessoal em nome do desejo ou seguir com uma relação que faz da vida um fardo maior do que ela já é. O convite feito pelo casal de cima é para que o desejo, sempre disruptivo, entre numa relação na qual ele foi sacrificado em nome de subterfúgios, das aparências, dos laços comuns, dos bens amealhados. Convite difícil, sem garantias dos ganhos, mas com perdas previsíveis. Não havendo alguém para bater em nossa porta oferecendo outra vida, vale escutar os sintomas que anunciam o mal-estar. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Um convite perturbador
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