Em 1995, um grupo de empresas e famílias brasileiras tomou uma decisão que estava longe de ser óbvia: recursos privados poderiam ser investidos de forma estruturada, transparente e contínua em iniciativas de interesse público. O país vivia os primeiros anos da redemocratização, ainda reconstruindo suas instituições e reaprendendo o valor da participação civil. Naquele momento, apostar na construção de um campo organizado para o investimento social exigia visão e coragem. Trinta anos depois, aquela aposta ajudou a consolidar uma das forças mais consistentes na construção de um Brasil mais justo. Ao longo dessas décadas, essa prática ganhou densidade e hoje o Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) reúne organizações que produzem conhecimento, estabelecem padrões, formam lideranças e articulam empresas, famílias e sociedade civil em torno de agendas comuns. Segundo o Censo Gife, as 170 organizações associadas à rede direcionaram, em 2024, R$ 5,8 bilhões para iniciativas de interesse público: expressão de uma trajetória de quem aprendeu a converter recursos em transformação social. Essa vocação se afirma em um país de paradoxos. O Brasil figura entre as maiores economias do mundo, reúne biodiversidade ímpar, possui setores empresariais competitivos internacionalmente e uma sociedade civil reconhecida por sua capacidade técnica e mobilização política. É nesse contexto, de potência e complexidade, que a filantropia e o investimento social privado assumem relevância estratégica: mobilizam recursos, conhecimento técnico, legitimidade institucional e capacidade de articulação em torno de agendas estruturantes. Em democracias como a brasileira, marcadas por descontinuidades políticas e desigualdades persistentes, esse papel é insubstituível. O desenvolvimento recente evidencia que empresas e famílias brasileiras têm aprofundado seu compromisso com causas públicas de forma crescente, mais estruturada e orientada a longo prazo. Fundações e institutos sustentados por aportes regulares de empresas mantenedoras, famílias ou fundos patrimoniais seguem sendo o modelo mais consolidado. As possibilidades, porém, se multiplicaram. Empresas de grande porte passaram a realizar investimentos a partir de sua própria estrutura, comprometendo-se publicamente com a doação de um percentual do lucro líquido. Ainda de forma incipiente no Brasil, alguns filantropos têm adotado o "spend down", grandes doações concentradas em um prazo determinado, sem a preocupação de manter estruturas perpétuas. Diferentes modelos convergem para o mesmo compromisso: enfrentar as desigualdades. A filantropia não substitui o poder público; e não deve. Seu valor está em mobilizar recursos onde as políticas públicas ainda não chegaram, experimentar modelos antes de escalá-los e sustentar agendas que resistam às inevitáveis descontinuidades políticas. Em um país que conjuga potência e desigualdade, a articulação entre iniciativa privada e ação pública é parte indispensável das soluções. O Gife ajudou a fundar um campo que hoje é referência e reúne alguns dos institutos e fundações mais importantes do país. Uma rede que assume publicamente a corresponsabilidade do setor privado e das famílias pelo desenvolvimento socioambiental do Brasil e que trabalha para qualificá-la cada vez mais. O que foi erguido ao longo dessas décadas aponta para uma visão clara de qual Brasil queremos: menos desigual, mais justo, mais capaz de converter sua potência em oportunidade para todos. O próximo desafio é continuar ampliando este trabalho: mais institutos e fundações, pautas mais relevantes e a mesma capacidade de transformar intenção em impacto, com ainda mais ambição. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Um compromisso com o pa�s
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