Um bilhete para Lulu

Um bilhete para Lulu

O papelinho foi colocado de forma estratégica para ser encontrado facilmente, embaixo da carteira. Nele, uma ofensa amarga, crua e debochada, que vai direto ao coração e fica guardada por muitos anos na cachola, quiçá a vida inteira. Irreprodutível. Tinha também um recado para biscoita, minha filha, que chorou baixinho, reclamou, mas ficou mesmo aflita foi com o impacto que aquilo causaria em Lulu, sua amiga, menininha de uma beleza gostosa, com sobrancelhas marcantes, cabelos ondulados e uma formosura só dela. "Não fica preocupada, não, Elis. Eu não ligo. Já me acostumei, não é a primeira vez", foi o relato dela, que fala calminho e troca graciosamente algumas letras. É diferente, é única, é um baú de aprendizados para qualquer amigo, para qualquer um que entendeu que a graça de viver está nas descobertas de possibilidades de ser feliz. "Já me acostumei" talvez seja a frase mais dolorosa de toda essa história. Nenhuma criança deveria precisar se acostumar a ser ferida. Há uma garota aprendendo a suportar algo que os adultos e a comunidade ao redor deveriam impedir ou ao menos se mobilizar pelo contrário. Crianças não aderem a valores humanos de forma automática, nem necessariamente com proximidade de exemplos –embora ajudem muito. Penso ser preciso ligá-los a sentimentos, a sensações e a afetos. Fazê-los germinar com troca de experiências, com escutas bem conduzidas, com práticas incansáveis de demonstrações de que o mundo é de todo mundo. Há muito por trás de um recadinho sorrateiro cuja intenção foi claramente fazer bullying, agredir, zombar. Há, certamente, ecos em grupinhos ávidos por novidades no recreio, questões de caráter a serem enfrentadas pela escola, pela família em pelos muitos cantos da sociedade. A discussão não é nova, mas a crueldade das práticas escala em múltiplas plataformas. Do lado de cá, dos diferentões, defendo ter força para escancarar aquilo que nos é posto como estranho, ter o palco aberto, menos silenciado para questões que nos circulam sejam pelas neurodivergências, sejam pelas questões físicas ou sensoriais. Assim, vamos tirando o poder de agredir de algumas palavras e naturalizando para nós mesmos o que nos faz únicos. O preconceito causa uma dor que gruda na alma. Mas o bilhete que condiz verdadeiramente com Lulu é o que joga sobre ela uma chuva de sorrisos por tudo o que ela representa para quem atravessa sua existência. E ela tem recebido esse outro recado. Juntou colegas e buscou evidências para denunciar a agressão na coordenação do colégio. Até chamaram uma reunião com os pais. Longe de fazer uma caçada aos brutos e brutas, que seja um espaço de bons pitacos para tentar lapidar seres em formação. Incansável formação. Que você, Lulu, nunca confunda a crueldade alheia com uma verdade a seu respeito. Desejo muito que os próximos bilhetes que encontrar dobrados debaixo da carteira digam aquilo que você merece: uma paquera de quem te goste, um desenho engraçado que te faça sorrir, um poeminha ou trecho de canção que faça do seu dia um lugar bem bonito e diferente. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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