Há um ano, Donald Trump anunciou que a guerra na Faixa de Gaza havia acabado. Doze meses depois, o cessar-fogo segue formalmente de pé, mas ataques aéreos e operações militares de Israel continuam a provocar mortes no território palestino. Em relatório divulgado no domingo (5), o Ocha, escritório de assuntos humanitários da ONU, afirmou que o Ministério da Saúde de Gaza, ligado às autoridades locais, contabilizou pelo menos 1.431 mortos e 5.026 feridos desde o anúncio oficial do cessar-fogo, em 10 de outubro do ano passado. O balanço inclui pessoas que morreram em decorrência de ferimentos e corpos recuperados dos escombros. Além dos palestinos, quatro soldados israelenses foram mortos em ações do grupo terrorista Hamas no mesmo período, segundo o Exército de Israel. Durante este período de cessar-fogo, segundo o Acled (Banco de Dados de Localização e Eventos de Conflitos Armados), "a violência caiu 61% em comparação com o segundo ano da guerra". A iniciativa monitora conflitos ao redor do mundo a partir do cruzamento de relatos locais e oficiais. Segundo os dados contabilizados, 1.915 palestinos foram mortos em Gaza no último ano, além de 165 no território da Cisjordânia. Nasser Khdour, analista de Oriente Médio do Acled, afirma que, em paralelo ao arrefecimento em Gaza, "no Líbano, por outro lado, a violência atingiu seu nível mais alto". Em comum, afirma o especialista, "Israel tem se baseado no controle territorial para pressionar o Hamas e o Hezbollah a se desarmar" —o grupo extremista libanês se juntou ao conflito em apoio ao Hamas após o início da guerra em Gaza. As Forças Armadas israelenses afirmam repetidamente que suas operações, em ambos os casos, seguem tendo como objetivo atingir membros e estruturas das facções. Em Gaza, Tel Aviv e Hamas se acusam mutuamente de descumprir múltiplas vezes o acordo. O cessar-fogo anunciado em outubro previa inicialmente a permanência das forças israelenses em cerca de 53% de Gaza, seguida de uma retirada gradual. Em maio, porém, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu afirmou que Israel já controlava 60% do território e que havia determinado às Forças Armadas chegar a 70%. Esse território é delimitado pela "linha amarela" estabelecida pelo Exército israelense. De acordo com um relatório do Ocha publicado no início deste mês, atualmente "além das restrições em vigor à entrada de suprimentos e equipamentos essenciais, as restrições de acesso a 65% do território de Gaza continuam sendo um obstáculo [para a reconstrução], visto que os 35% restantes já estão superlotados". Khdour, do Acled, afirma que "Israel tem procurado pressionar a população em geral por meio de ordens de retirada, ataques contínuos, destruição de infraestrutura e controle territorial", uma vez que mantém a militarização em torno da linha amarela. Organizações humanitárias e a ONU dizem que as limitações dificultam reparos de infraestrutura e ampliam a precariedade enfrentada pela população civil. O governo israelense, por sua vez, afirma que os avanços militares ocorrem em resposta a ataques do Hamas e a violações da trégua. Diz ainda que algumas das restrições à entrada de materiais são necessárias por razões de segurança, diante da possibilidade de que itens sejam usados para reconstruir a capacidade militar do grupo terrorista. A maioria dos cerca de 2,1 milhões de habitantes de Gaza continua deslocada. De acordo com o Ocha, "as necessidades humanitárias continuam avassaladoras, em meio a ataques e outras atividades militares em curso". Segundo o último levantamento, 94% da população local necessita urgentemente de auxílio para moradia e itens domésticos básicos, e 65% das famílias vivem em tendas ou abrigos improvisados. A destruição tampouco parou com a assinatura do acordo, há um ano. Uma análise do Unosat, centro de satélites da ONU, estimou com imagens de junho que 82% das estruturas de Gaza haviam sofrido algum tipo de dano —o que representa mais de 200 mil construções. Cerca de dois terços delas foram classificadas como destruídas. O número de estruturas com essa classificação, completamente destruídas, cresceu 9% desde a declaração do cessar-fogo, segundo o órgão. O tamanho da devastação é um dos elementos que ajuda a explicar por que a reconstrução prevista no acordo ainda pouco avançou. Em abril, uma avaliação conjunta da ONU, da União Europeia e do Banco Mundial calculou em US$ 71,4 bilhões (R$ 354,8 bi) o custo para recuperar e reconstruir Gaza na próxima década —US$ 26,3 bilhões (R$ 130,7 bi) seriam necessários apenas nos primeiros 18 meses. O relatório estima que o território tenha sofrido um retrocesso de 77 anos no desenvolvimento humano local. Mesmo com a acentuada queda no número de operações militares —resultado também do cessar-fogo—, as questões deixadas para depois se mostraram mais difíceis. A segunda fase do plano apresentado pelos EUA prevê a criação de uma administração palestina tecnocrática, a retirada progressiva das tropas israelenses e o desarmamento do Hamas. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Em janeiro, Trump anunciou a criação do Conselho da Paz, presidido por ele próprio, para supervisionar a implementação do plano. Em julho, o grupo terrorista anunciou a dissolução do órgão por meio do qual administrava os ministérios de Gaza e disse que entregaria as funções civis ao Comitê Nacional para a Administração de Gaza, formado por tecnocratas palestinos. Israel classificou o anúncio como um "truque" enquanto a facção não entregasse suas armas e manteve bloqueada a entrada dos integrantes da nova administração. O impasse, desde então, se concentra na ordem dos próximos passos. Um plano de 15 pontos apoiado por Trump prevê que o Hamas se desmilitarize gradualmente enquanto Israel retira suas forças, também de maneira progressiva. Em agosto, Netanyahu rejeitou a proposta e afirmou que não haverá nenhuma retirada antes que o Hamas se desarme. A facção, por outro lado, afirma que Tel Aviv deve primeiro cumprir compromissos previstos no acordo, sobretudo a retirada de suas tropas. No último domingo (5), Netanyahu voltou a indicar que as operações continuarão. "Não haverá governo do Hamas em Gaza", afirmou durante uma cerimônia oficial. Dias antes, ele e o ministro da Defesa, Israel Katz, disseram que perseguirão integrantes da facção "até que o Hamas não exista mais". O que foi o 7 de Outubro, maior ataque terrorista da história de Israel Na manhã do dia 7 de outubro de 2023, integrantes do Hamas e outros grupos terroristas palestinos entraram armados em território de Israel e assassinaram mais de 1.200 pessoas. O ataque foi o maior da história do Estado judeu e amplamente considerado o pior massacre de judeus desde o Holocausto. Foram atacados kibutzim, comunidades, estradas e eventos que ocorriam próximos à fronteira. Entre os vários locais atacados, em ação que durou horas e cuja resposta inicial do governo de Binyamin Netanyahu foi criticada pela demora, o evento de música eletrônica próximo do kibutz Re'im teve o maior número de mortos: 378. Além de massacrar civis, policiais e militares, os terroristas sequestraram 251 pessoas em território israelense que foram levadas para Gaza. Entre elas havia 44 pessoas já mortas. A resposta israelense em larga escala reduziu a maior parte da Faixa de Gaza a ruínas, provocou uma crise humanitária sem precedentes e matou mais de 73 mil pessoas, a maioria civis, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. O órgão está sob autoridade do Hamas e seus números são considerados confiáveis pelas Nações Unidas.
Um ano ap�s cessar-fogo, mortes continuam em Gaza, e impasse trava p�s-guerra
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