Depois que tumultos eclodiram neste fim de semana em cidades de toda a França, o governo centrista culpou o principal partido de ultraesquerda, acusando seus políticos de incitar a violência. O partido, por sua vez, responsabilizou o governo, acusando-o de alimentar a indignação popular com anos de má gestão e policiamento truculento. O que fez o principal partido de ultradireita? Culpou os dois lados e entrou em modo de campanha. "Estamos pagando por décadas de leniência com o crime, de autoridade fraca, de desarmamento moral, psicológico e material de nossas forças de segurança interna", afirmou Jordan Bardella, líder da ultradireitista Reunião Nacional (RN), ao sair de uma delegacia no centro de Paris no domingo (18). Ele disse que havia ido ao local para manifestar apoio aos policiais. Em seguida, dirigiu-se aos "cidadãos honestos" da França, atônitos com as vitrines destruídas e os estabelecimentos incendiados pelos manifestantes. Segundo ele, essas pessoas tinham um papel fundamental a desempenhar na restauração da estabilidade nacional. E isso deveria ser feito votando em seu partido na próxima eleição."As pessoas precisam acordar agora", disse Bardella. "Precisam fazer as escolhas políticas certas e, de todo modo, estamos prontos para restaurar a ordem no país." O domingo foi um dia de luto, choque e troca de acusações na França. Na véspera, grandes manifestações pacíficas por melhores condições nas escolas e contra o aumento do custo de vida haviam sido ofuscadas por agitadores vestidos de preto, muitos deles mascarados e de filiação incerta, que atacaram prédios públicos e lojas em todo o país, às vezes roubando vinho ou aparelhos eletrônicos. Para a RN, que se apresenta como o partido da lei e da ordem e defende a expulsão de imigrantes em situação irregular, o domingo também foi uma oportunidade política. Faltam seis meses para a eleição presidencial, e a candidata da legenda, Marine Le Pen, é a favorita na disputa. "A imagem da França que emerge, diante de toda essa destruição, favorece os interesses deles", disse Bruno Cautrès, cientista político do Sciences Po. "É evidente que a Reunião Nacional não sai perdendo com isso." Euro Radar Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris Le Pen vem tentando tornar o partido mais palatável, afastando seu fundador e pai, Jean-Marie Le Pen, conhecido por declarações racistas, homofóbicas e antissemitas. A legenda, porém, nunca rompeu completamente com ele, e muitos de seus candidatos fizeram declarações racistas ou antissemitas e os principais juízes da França mantiveram a classificação formal do partido como uma força de extrema direita. A maneira como a legenda reage aos tumultos reflete uma estratégia adotada por grupos de extrema direita em toda a Europa, que procuram se apresentar como solução para diferentes tipos de desafios sociais e governamentais. Em julho, o governo da Espanha perdeu brevemente o controle das fronteiras de um território espanhol no norte da África, permitindo a entrada de um grande número de migrantes e dando ao partido espanhol de ultradireita Vox um novo tema de campanha. Na Alemanha, a Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema direita, lidera as pesquisas nacionais, em parte por canalizar a ansiedade em torno da identidade do país. Na França, nesta semana, enquanto Bardella criticava a atuação policial do governo, Le Pen aproveitou a ocasião para atacar Jean-Luc Mélenchon, líder do principal partido de ultraesquerda, França Insubmissa, e um de seus principais adversários na disputa presidencial. Ela afirmou que "demandas sociais legítimas" haviam sido "sequestradas pela extrema esquerda e pela retórica de Mélenchon" e de seus aliados, a quem acusou de estimular o caos ao "legitimar a violência" —acusação negada pelo partido. Os tumultos ocorreram em um momento delicado para a França, que já enfrenta um déficit orçamentário preocupante e um Parlamento paralisado, no qual nenhum partido tem maioria. "A extrema direita certamente vai se beneficiar disso", disse Alexis Veller, 53, cineasta que parou sua motocicleta na manhã de domingo para fotografar vitrines quebradas e muros pichados no centro de Paris. "Somos um país muito fragmentado. A situação é muito, muito preocupante." Analistas políticos ponderaram que seis meses até a eleição representam um período longo na política e que as motivações dos eleitores são complexas e raramente se concentram em uma única questão. Ainda assim, a violência se encaixou perfeitamente na imagem que a RN há muito procura projetar: a de uma França dividida em dois campos que lutam pela própria sobrevivência, afirmou Vincent Martigny, professor de ciência política da Universidade Côte d’Azur, em Nice. O partido apresenta o país como dividido entre a França dos centros urbanos —que, segundo a legenda, está repleta de estudantes progressistas e manifestantes violentos— e a "boa França" do interior tranquilo, disse Martigny. "Eles tentam colocar essas duas Franças em oposição por um motivo óbvio: sua base eleitoral não está nos centros urbanos nem nos subúrbios, mas claramente nessa outra França", afirmou Martigny, acrescentando que isso "alimenta o sentimento de deterioração, de declínio". O efeito duradouro dos distúrbios sobre as perspectivas eleitorais da RN dependerá, em parte, da continuidade dos protestos, disse o professor. Na noite de domingo, Le Pen divulgou um pronunciamento em vídeo no qual retratou justamente essa França dividida. Ela foi filmada sentada atrás de uma escrivaninha de madeira, com a bandeira francesa ao fundo e as mãos entrelaçadas —a imagem de uma presidente à espera de assumir o cargo. "Condeno o sequestro dessa indignação por arruaceiros que estão semeando o caos nas cidades francesas", afirmou. "Daqui a seis meses, o povo francês poderá escolher outro caminho: o da restauração da autoridade e da segurança." A RN defende uma força policial maior e mais forte. Nas eleições legislativas de 2024, fez campanha pela imposição de penas mínimas obrigatórias, pelo fim da redução de sentenças e pela construção de mais prisões. Também prometeu reduzir de 18 para 16 anos a idade a partir da qual réus podem ser julgados como adultos e cortar os subsídios estatais destinados aos pais de menores infratores.
Ultradireita tira vantagem dos protestos na Fran�a a 6 meses da elei��o presidencial
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