A União Europeia alertou o primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, de que o país precisa elevar as tarifas sobre carros chineses e alinhar-se mais estreitamente à política comercial da UE se quiser evitar barreiras do "fabricado na Europa" que atingiriam exportações importantes. Em resposta a semanas de intensa pressão para garantir tratamento igualitário aos produtos britânicos, a UE disse a Londres que a melhor solução seria aderir à união aduaneira do bloco, segundo duas pessoas a par do assunto. Uma autoridade da UE afirmou que o alinhamento dos britânicos poderia resolver as divergências tarifárias que geram o temor que a China contorne as taxas para exportar seus produtos. A política do "fabricado na Europa" pretende favorecer fabricantes da UE na concessão de subsídios e nas compras públicas, em uma tentativa de proteger o bloco da concorrência chinesa. O primeiro-ministro britânico afirmou que manterá os limites estabelecidos pelo Partido Trabalhista nas últimas eleições, descartando a adesão a uma união aduaneira ou ao mercado único. Mas até mesmo o alinhamento a medidas comerciais protecionistas da UE em setores cruciais —como a adoção de tarifas antissubsídios de até 45% sobre veículos elétricos chineses— reduziria as liberdades conquistadas pelo Reino Unido após o Brexit e elevaria os preços para os consumidores. Segundo uma das pessoas ouvidas pela reportagem, o temor é que o Reino Unido vire a porta de entrada dos produtos chineses e chegue aos países do bloco europeu sem pagar as tarifas exigidas pela UE. O Reino Unido já acompanhou, com relutância, uma iniciativa da UE adotada no início deste ano para dobrar as tarifas sobre o aço, para 50%, e reduzir as cotas pela metade, em uma tentativa de enfrentar o excesso global de capacidade siderúrgica, impulsionado sobretudo pela China. Ao mesmo tempo, o governo britânico pressiona Bruxelas para incluir suas cadeias de fornecimento dos setores automotivo, químico e energético no programa "fabricado na Europa" do bloco, temendo que a indústria britânica seja excluída de valiosos programas de subsídios da UE. Líderes da indústria automotiva questionam por quanto tempo o Reino Unido poderá manter políticas tarifárias divergentes das adotadas pela UE se quiser que as cadeias de fornecimento britânicas sejam tratadas como "europeias". O Reino Unido não acompanhou a UE na imposição de tarifas às importações de veículos elétricos chineses quando o bloco as introduziu, em 2024, o que permitiu aos fabricantes da China conquistar, juntos, 16% do mercado britânico de carros novos neste ano. Massimiliano Messina, chefe da Nissan na Europa, alertou neste mês que o Reino Unido corria o risco de se tornar um "corredor" para a entrada de veículos elétricos chineses na UE. "O Reino Unido como um todo precisa ajustar parte de sua política tarifária", afirmou. A perspectiva de ter de impor tarifas sobre veículos elétricos chineses representa um dilema para o governo britânico, que busca atrair investimentos da China para fábricas de automóveis no país, incluindo um acordo para que a montadora Chery produza veículos na fábrica da Nissan em Sunderland. O Reino Unido enfrenta um dilema semelhante na indústria química, que vem sendo duramente atingida pelas importações chinesas com preços menores, responsáveis por desencadear uma onda de medidas antidumping de Bruxelas, com novas ações previstas para os próximos meses. Em um sinal do aumento das tensões entre Londres e Bruxelas devido às diferentes abordagens em relação ao comércio com a China, a UE anunciou neste mês que passaria a monitorar as exportações de dióxido de titânio do Reino Unido para a Europa. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. A medida da UE foi adotada depois que as autoridades de defesa da concorrência do Reino Unido autorizaram a maior produtora chinesa desse agente branqueador industrial a comprar uma fábrica em Teesside, no nordeste da Inglaterra, que entrou em recuperação judicial em outubro do ano passado. "A mensagem é que, se o Reino Unido não se alinhar na área comercial, perderá grande parte de seu acesso. A UE reforçará a proteção contra o Reino Unido", afirmou Marie-Sophie Dibling, sócia do escritório de advocacia Cassidy Levy Kent, que representa a indústria química da UE. Em aparente antecipação às difíceis escolhas que virão, o secretário de Negócios do Reino Unido, Jonathan Reynolds, escreveu neste mês à indústria química do país solicitando informações sobre importações desleais e observando que novas tarifas da UE eram prováveis. Na carta, à qual o FT teve acesso, Reynolds afirmou que as informações ajudariam o Reino Unido "a decidir em quais áreas poderão ser necessárias novas medidas de defesa comercial".Se o Reino Unido ampliasse suas medidas de defesa comercial contra a China, correria o risco de entrar em confronto com Pequim, um importante investidor e parceiro comercial. O relato chinês sobre a primeira conversa telefônica de Burnham com o presidente Xi Jinping registrou que Pequim esperava que o Reino Unido "protegesse plenamente os direitos e interesses legítimos dos investidores chineses". John Alty, ex-diretor-geral de política comercial do Departamento de Comércio Internacional do Reino Unido, afirmou que o país tinha "pouca escolha" além de igualar as tarifas da UE sobre o aço e que enfrentaria decisões cada vez mais difíceis à medida que a concorrência entre a China e o Ocidente se intensificasse. "As grandes potências comerciais estão dizendo: ‘Se vocês querem acesso, nós queremos controlar o que entra em seu mercado vindo de outros lugares’", afirmou. "Isso torna a vida muito mais difícil para países como o Reino Unido. Com frequência excessiva, afastamo-nos das ‘terras altas banhadas pelo sol’ da remoção de barreiras para passar a administrar barreiras ao comércio." O Departamento de Negócios, Inovação, Ciência e Comércio afirmou que buscava explorar uma cooperação mais profunda com a UE, ao mesmo tempo que procurava evitar "danos colaterais" decorrentes da ambição compartilhada de proteção contra práticas comerciais desleais. "Sempre adotamos medidas comerciais de forma independente e com base exclusivamente nos interesses econômicos do Reino Unido e de sua indústria. No entanto, a Europa e o Reino Unido enfrentam muitos dos mesmos desafios, razão pela qual é vital proteger os fluxos comerciais entre nós", acrescentou. A Comissão Europeia não quis comentar.
UE pressiona Reino Unido a aumentar tarifas sobre produtos da China e evitar isolamento
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