A tentativa do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, de estabilizar o mercado de US$ 32 trilhões (R$ 163,23 trilhões) em títulos da dívida pública do país saiu pela culatra, com investidores alertando que a primeira investida dele foi tímida demais para conter a disparada dos rendimentos e, em vez disso, abalou sua credibilidade. O rendimento dos títulos do Tesouro americano de dez anos, referência para trilhões de dólares em ativos no mundo todo, saltou nesta semana para o maior nível em quase três anos e está prestes a atingir a marca de 5%, considerada um patamar preocupante em Wall Street. O rendimento chegou a 4,98% nas negociações asiáticas de sexta-feira (11), antes de recuar para 4,94% em Londres. O petróleo Brent caiu para menos de US$ 105 por barril, após ter atingido quase US$ 110. Já o rendimento dos títulos com vencimento em 30 anos atingiu seu nível mais alto desde 2007 nesta sexta, alcançando 5,35%. A mais recente alta dos custos de financiamento ocorreu mesmo após o Tesouro lançar um programa de recompra de títulos de US$ 6 bilhões, ampliado por Bessent durante esta semana para combater o que ele descreveu como uma "febre" no mercado mais importante do mundo. Em vez disso, a intervenção despertou temores de que os Estados Unidos —a âncora das finanças globais— estejam agindo de maneira mais comumente associada a tomadores de empréstimos mais frágeis. "Não podemos ignorar o fato de que há riscos típicos de mercados emergentes em algumas das medidas que os EUA vêm adotando", avaliou Ellen Zentner, estrategista-chefe de economia do Morgan Stanley Wealth Management e integrante do Comitê Consultivo de Empréstimos do Tesouro, que assessora o governo sobre emissões de títulos. "Normalmente, não vemos políticas intervencionistas partindo dos Estados Unidos. Ou, quando vemos, trata-se de um processo formal e institucionalizado", recordou. A operação de recompra do Tesouro, que surpreendeu os investidores quando foi anunciada em agosto, ocorreu após uma intervenção para sustentar o iene japonês. A alta dos custos de financiamento nesta semana foi alimentada por uma disparada repentina dos preços do petróleo, que subiram fortemente na quinta-feira à medida que se intensificou o confronto entre EUA e Irã pelo estreito de Hormuz e ataques de rebeldes houthis apoiados por Teerã passaram a representar uma ameaça crescente ao abastecimento proveniente da região. O presidente norte-americano, Donald Trump, também sinalizou nesta semana que sua guerra no Irã e os elevados custos da energia poderiam se prolongar para além das eleições legislativas de novembro. O salto dos preços da energia provocado pela guerra no Irã somou-se às preocupações com o volume recorde de endividamento soberano e com uma enxurrada de emissões de empresas de tecnologia, impulsionando os rendimentos globais. As preocupações com as finanças públicas dos Estados Unidos, depois de a dívida do país superar US$ 40 trilhões no mês passado, aumentaram na quinta-feira, após Trump prometer um pagamento de US$ 5.000 (R$ 25,5 mil) a todos os adultos americanos caso os republicanos vencessem as eleições de meio de mandato, marcadas para novembro, a um custo superior a US$ 1 trilhão. As expectativas de que a inteligência artificial impulsionará um forte crescimento econômico também têm contribuído para o movimento. Mas gestores de fundos disseram que a alta do rendimento dos títulos do Tesouro de dez anos desde o início da semana —atualmente de 0,16 ponto percentual— também mostrou que a operação de recompra de Bessent foi fraca demais para conter os custos de financiamento. O Tesouro havia informado na quarta-feira (9) que compraria no máximo US$ 6 bilhões em títulos em sua primeira recompra, em comparação com os "pelo menos" US$ 4 bilhões prometidos em meados de agosto, quando anunciou a medida. Mas alguns bancos e investidores esperavam uma operação maior. Na quinta-feira, o Tesouro anunciou que havia aceitado apenas US$ 5,2 bilhões em ofertas de investidores para a venda de títulos.Vincent Mortier, diretor de investimentos do grupo Amundi, afirmou que o pequeno porte da intervenção significava que ela "não resolve o desafio mais amplo" da alta dos rendimentos nos EUA. Segundo ele, a sinalização de Bessent aos mercados por meio das recompras poderia se mostrar contraproducente, por "demonstrar certo nervosismo" por parte do governo. Questionado sobre as reservas dos investidores em relação à operação de recompra, um alto funcionário do Tesouro apontou para um leilão "excepcionalmente forte" de títulos de 30 anos, também realizado na quinta-feira. O funcionário afirmou que os compradores primários —grandes bancos responsáveis por absorver qualquer oferta não adquirida pelos investidores— adquiriram a menor parcela já registrada para esse tipo de título, enquanto a relação entre ofertas e títulos disponíveis, uma medida da demanda, foi a terceira mais alta dos últimos cinco anos. A recompra integra uma postura cada vez mais intervencionista adotada por Bessent, um ex-gestor de fundos de hedge que se tornou secretário do Tesouro. Entre as medidas está uma intervenção para sustentar o iene em relação ao euro no fim de julho, que pegou o BCE (Banco Central Europeu( de surpresa. Nesta semana, Bessent advertiu o mercado a não apostar contra ele no iene, dizendo aos investidores: "Eu sou a banca", em alusão aos jogos de cassino, nos quais a banca é responsável pelo pagamento aos vencedores de apostas. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. A decepção do mercado com o programa de recompra decorreu da impressão de que o Tesouro tentava "fazer as coisas gastando o mínimo possível, quase contando os centavos... o que é incompatível com uma abordagem de ‘custe o que custar’", indicou Mark Cabana, chefe de estratégia para juros dos Estados Unidos no Bank of America. "Se você vai intervir, deve se preocupar mais em levar o mercado em determinada direção ou atingir certo nível do que com o preço que está disposto a pagar", acrescentou. "Não dá para ter as duas coisas." Alguns investidores apontaram que a intervenção de Bessent, embora surpreendente, foi pequena demais para conter a onda de alta dos rendimentos, impulsionada pelas preocupações com o déficit crescente dos Estados Unidos e a inflação persistente. "Eu imaginaria que Bessent entenderia que, em qualquer intervenção, a primeira investida é a melhor oportunidade e é preciso chegar com força", disse Bill Campbell, gestor de portfólio da DoubleLine. ALTA NA ALEMANHA, QUEDA NO REINO UNIDO Em algumas das principais economias do mundo, o rendimento dos títulos públicos nacionais tinham performances diferentes nesta sexta. O rendimento dos títulos alemães a 10 anos subiu 0,01 ponto percentual, para 3,51%, elevando os custos de financiamento na Alemanha ao seu nível mais alto desde 2009 e ligeiramente acima dos níveis observados durante a crise da dívida da zona do euro. Já no Reino Unido, o rendimento dos títulos do governo com vencimento em 10 anos caiu 0,04 ponto percentual, para 5,34%, ficando pouco abaixo do nível mais alto desde 2007. Os mercados de ações asiáticos caíram devido à alta dos preços do petróleo, que afetou fortemente a região, já bastante exposta aos custos de energia. As Bolsas de Seul e de Tóquio caíram 1,8% e 1,9%, respectivamente, enquanto em Taiwan a desvalorização foi de 1,6%. Xangai e Hong Kong também registraram quedas de 1,2% e 0,6%, respectivamente.
T�tica dos EUA para t�tulos do Tesouro fracassa e rendimento atinge n�vel preocupante
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