Trump tenta baixar pre�o da carne e desagrada pecuaristas

Trump tenta baixar pre�o da carne e desagrada pecuaristas

O governo Trump lançou vários programas destinados a tranquilizar consumidores frustrados com os altos preços da carne bovina e pecuaristas irritados com as importações do produto. Na segunda-feira (31), a secretária de Agricultura, Brooke Rollins, lançou a "Ranchers First Initiative" ("Iniciativa Pecuaristas em Primeiro Lugar", em tradução livre) para dar mais segurança financeira aos pecuaristas que decidiram investir na expansão de seus rebanhos. As medidas foram anunciadas dias depois de o presidente Donald Trump dizer que estava "autorizando documentos legais" para permitir que agricultores e pecuaristas processem seus próprios alimentos, o que poderia representar um desafio às grandes empresas frigoríficas. O anúncio do presidente veio depois que ele assinou, em agosto, um acordo que permitiria a entrada de 300 mil toneladas métricas de recortes de carne bovina magra nos Estados Unidos com uma tarifa reduzida durante os três meses seguintes. A medida provocou reação imediata de pecuaristas e até de alguns republicanos no Congresso, preocupados com a possibilidade de a carne estrangeira reduzir os lucros domésticos. As importações de carne bovina neste ano já estão 13% acima das registradas em 2025, segundo dados do Departamento de Agricultura. "Isso é um presente para as quatro grandes processadoras de carne, para que possam trazer carne de qualidade inferior e vendê-la aos preços da carne bovina americana", disse Walter Schweitzer, presidente da Montana Farmers Union, sindicato de agricultores e pecuaristas de Montana. Grupos do setor que representam pecuaristas e empresas frigoríficas disseram que as medidas poderiam ameaçar a segurança dos alimentos, enquanto economistas agrícolas afirmaram que elas provocariam caos no mercado de gado e fariam pouco para reduzir o alto custo da carne bovina. "Não se deve esperar que essas políticas aumentem a oferta de carne bovina ou reduzam os preços no varejo no próximo ano ou nos dois anos seguintes", disse James Mitchell, economista especializado em pecuária da Universidade do Arkansas. Um quilo de carne bovina moída custava, em média, US$ 6,89 (R$ 35,14) em julho, segundo o Departamento de Estatísticas Trabalhistas, alta de 10% em relação a um ano antes. Com as eleições legislativas de meio de mandato a dois meses de distância, Trump tenta rapidamente agradar tanto os consumidores preocupados com o custo de vida quanto os pecuaristas, que formam um importante bloco eleitoral e se beneficiam dos preços elevados do gado. A oferta de gado nos Estados Unidos está no menor nível desde 1951 porque anos de seca e preços baixos levaram os pecuaristas a reduzir o tamanho de seus rebanhos. Normalmente, preços elevados do gado incentivam os produtores a reter novilhas e vacas que, de outra forma, seriam enviadas para o abate, permitindo que aumentem seus rebanhos e aproveitem os preços altos por mais tempo. Essa mudança leva vários anos para se concretizar porque as vacas dão à luz apenas um bezerro por ano. Uma oferta maior de gado acabaria por estabilizar ou reduzir os preços da carne bovina. A iniciativa apresentada pelo Departamento de Agricultura na segunda-feira (31) tentou apaziguar os pecuaristas, mas trouxe poucos detalhes. O programa inclui um novo tipo de seguro para incentivar os pecuaristas a manter novilhas para que tenham mais bezerros, assistência para ajudar na recuperação mais rápida após incêndios florestais e garantias de empréstimos para pequenos frigoríficos e instalações regionais de abate. As garantias têm como principal alvo o poder de mercado das quatro grandes empresas frigoríficas —JBS, Tyson Foods, Cargill e National Beef— que, juntas, abatem mais de 80% do gado nos Estados Unidos. Trump disse nas redes sociais que iria "quebrar esse poderoso monopólio" das quatro empresas, que há muito são criticadas por afastar processadores menores, reduzindo a concorrência e elevando o custo da carne bovina. Mas até alguns concorrentes das grandes processadoras criticaram o presidente. "Acho uma loucura o que ele está recomendando", disse Jim Hertzog, proprietário de um pequeno frigorífico que abate cerca de 100 cabeças de gado por semana. Ele está preocupado com a sugestão do presidente de flexibilizar as regras para o abate. "Temos a carne bovina mais saudável e segura do mundo, então por que diabos você iria querer suspender as regulamentações para facilitar as coisas?", questionou. O restante do mercado de processamento é formado por pequenos frigoríficos independentes, como o de Hertzog, e pelo chamado processamento "custom exempt" ("isenção aduaneira"). Os frigoríficos menores contam com inspetores do Departamento de Agricultura no local, enquanto os processadores enquadrados na categoria "custom exempt" não. Eles só podem abater animais para consumo pessoal e não podem vender a carne ao público. Embora grupos que representam as quatro grandes empresas frigoríficas e os confinamentos tenham repetido as preocupações de Hertzog, nem todos se opuseram a mudanças nas regras de processamento de carne. "Este é um passo na direção certa", disse Bill Bullard, CEO do Ranchers-Cattlemen Action Legal Fund, que representa produtores independentes de gado. Segundo ele, reduzir as exigências relacionadas aos planos de segurança alimentar que todos os processadores de carne devem seguir, independentemente do tamanho, poderia diminuir os encargos para as empresas menores. Até alguns adversários políticos, como a deputada Chellie Pingree, democrata do Maine, apoiam o fortalecimento dos pequenos processadores. "As questões relacionadas à capacidade adequada de abate para agricultores de pequeno e médio porte são enormes", disse ela. Pingree apresentou um projeto de lei bipartidário que permitiria aos processadores enquadrados como "custom exempt" vender carne dentro de seus próprios estados. Mas, além de afirmar que as regras poderiam ser ajustadas, Pingree disse que as políticas de Trump para a carne bovina e o gado eram vagas e incoerentes. "Isso é emblemático do governo Trump, que parece ter estratégias caóticas e incompetentes e nenhuma política coerente que permita dizer: ‘É isso que eles estão fazendo para apoiar os custos ou a oferta’", afirmou. Embora o presidente tenha classificado as quatro grandes processadoras como um monopólio, seu governo tomou medidas para revogar mudanças recentes na centenária Packers and Stockyards Act, lei que regulamenta o setor de frigoríficos e a relação com produtores. O ex-presidente Joe Biden havia feito essas alterações para aumentar a concorrência no processamento de carne e proteger os pecuaristas de práticas abusivas. O procurador-geral adjunto Todd Blanche confirmou em maio que o governo Trump investigava possíveis problemas antitruste no setor de frigoríficos. Há muito tempo, os supermercados afirmam ser obrigados a comprar carne a preços inflacionados devido ao poder de mercado concentrado das processadoras e já obtiveram milhões de dólares em acordos após processá-las. Na terça-feira, o Departamento de Justiça disse ter enviado, em julho, cartas a oito redes de supermercados com perguntas sobre os preços elevados da carne bovina. Foi a primeira indicação de que a investigação sobre o setor de frigoríficos poderia se ampliar para incluir os preços da carne e os supermercados. Kroger, Publix, Walmart, Albertsons, Aldi, Costco, Amazon e Ahold Delhaize USA, que opera as redes Stop & Shop e Food Lion, receberam as cartas. Ainda assim, políticas federais voláteis, somadas à seca em importantes regiões de criação de gado e ao ressurgimento da mosca-varejeira conhecida como "screwworm", que se alimenta de tecido vivo, tornaram a situação econômica dos pecuaristas ainda mais difícil. "Gostamos de dizer que aumentar o tamanho do mercado de gado dos EUA exige os três Ps: lucro para os produtores, pastagens e paciência", disse Mitchell. "Neste momento, só temos um deles. Temos lucros." Também existe um ceticismo generalizado sobre a possibilidade de que, mesmo com algum apoio, os pequenos frigoríficos consigam de fato competir com os grandes conglomerados multinacionais e reduzir seu poder, enquanto seus negócios de carne bovina atualmente registram prejuízos. A Tyson Foods projetou que terá um prejuízo de pelo menos US$ 500 milhões (R$ 2,55 bilhões) em seu negócio de carne bovina neste ano, enquanto a JBS informou ter registrado prejuízo de US$ 427 milhões (R$ 2,18 bilhões) em sua operação de carne bovina na América do Norte no primeiro semestre de 2026. O aumento dos custos do gado eliminou os ganhos obtidos com a cobrança de preços mais altos pela carne, e as duas empresas estão fechando instalações de processamento de gado que não são lucrativas. Os anúncios e declarações de política econômica da Casa Branca deixaram muitos integrantes do setor confusos. Cerca de 80% da carne bovina consumida pelos americanos vem de gado criado nos Estados Unidos, e a única maneira de aumentar a oferta doméstica de carne é os pecuaristas reconstruírem seus rebanhos —mas isso leva anos. Embora algumas das políticas do presidente apoiem esse objetivo, o aumento das importações de carne bovina reduz, na prática, o preço recebido pelos pecuaristas pelo gado e provavelmente os levaria a reconsiderar o investimento na criação de mais animais. "Tudo o que ele está fazendo agora é só jogar fumaça, tentando encobrir seus rastros, e é absolutamente ridículo o que ele está tentando fazer", disse Hertzog, que havia incentivado as pessoas a votar em Trump em 2024.

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