Os Estados Unidos raramente se lançaram a grandes intervenções militares no Oriente Médio sem antes buscar algum apoio regional e de aliados globais. O presidente Donald Trump não observou tal precaução. Após inflamar ainda mais a região, angariou fiascos em suas iniciativas diplomáticas para tentar reverter a situação e hoje vê-se enredado na desordem que criou. A resiliência e a capacidade contraofensiva do Irã, passados seis meses do primeiro ataque dos EUA e de Israel, mostram-se insuperáveis. Se o republicano teve de engolir sua declaração de vitória em abril, também perdeu a chance de firmar um acordo efetivo para recuperar alguma paz na região e conter o programa nuclear iraniano. Com os 60 dias de cessar-fogo —violado de lado a lado— concluídos na última segunda (17), o que resta é a persistente obstrução do tráfego no Estreito de Hormuz pelo Irã e suas consequências para a economia global: insegurança energética e aumento da inflação devido à pressão sobre os preços do petróleo. Mesmo antes da negativa ao acordo proposto pela Casa Branca, ataques de Teerã e de seus aliados no Iraque e no Iêmen contra bases militares americanas em países árabes denotaram o erro estratégico de Washington. Avesso a reabrir as negociações diplomáticas, na quarta-feira (19) Trump anunciou uma "guerra econômica sem precedentes" contra a teocracia e, por meio de ameaça vaga, a países que mantêm transações com Teerã. Trump também não foi exitoso em sua empreitada pela paz entre Israel e o Hamas, cujo desenho foi endossado pelo grupo terrorista palestino e rejeitado por seu aliado Binyamin Netanyahu no início deste mês. A ausência de censura do primeiro-ministro ao titular da pasta de Segurança Nacional, o ultradireitista Itamar Ben-Gvir, revela a preferência de Israel pelo frágil cessar-fogo vigente. Em recente entrevista, Ben-Gvir defendeu o assassinato seletivo de 30 a 40 palestinos por noite em Gaza, a instalação de assentamentos israelenses e a emigração em massa da população local. Tampouco houve advertência pública da Casa Branca à funesta propaganda do ministro de Netanyahu, mesmo ante o desgosto do acordo recusado. É provável que a receita do republicano para desfazer seus erros estratégicos agrave o caos por ele instalado no Oriente Médio. O mundo busca alternativas à situação atual, mas, enquanto Trump estiver no poder, não virão dos EUA soluções de bom senso. editoriais@grupofolha.com.br
Trump se enreda no caos que criou no Oriente M�dio
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