Todos nós já passamos por isso antes. O presidente Donald Trump emite uma enxurrada de tarifas punitivas contra aliados e rivais, o que tensiona o comércio, abala os mercados de títulos, eleva preços e injeta mais incerteza na economia global. A diferença agora é que os Estados Unidos estão em guerra com o Irã, rotas comerciais e energéticas essenciais na região do golfo Pérsico estão bloqueadas e o preço global do petróleo está próximo de US$ 100 (R$ 506) o barril. Quando Trump revelou sua primeira onda de tarifas, em 2 de abril de 2025, o petróleo estava em torno de US$ 70 (R$ 354, na cotação atual) o barril. "Essas novas tensões comerciais surgem em um momento em que a economia global, devido aos preços mais altos de energia, está em uma posição mais fraca do que no 'Dia da Libertação' do ano passado", disse Carsten Brzeski, economista do banco multinacional holandês ING, referindo-se ao dia em que Trump anunciou as taxas específicas. Os novos impostos de importação sobre mais de 80 países, incluindo membros da União Europeia, são a mais recente tentativa de Trump de reimplantar tarifas depois que a Suprema Corte dos EUA derrubou muitas de suas taxas anteriores em fevereiro. As tarifas —que usam práticas trabalhistas injustas dos parceiros comerciais como justificativa— substituem um conjunto similar e temporário que ele impôs logo após a decisão da Corte. Mais tarifas devem seguir. Brzeski e outros analistas disseram que a economia já absorveu grande parte do impacto inflacionário da guerra comercial de Trump. "O pior da inflação de bens relacionada às tarifas provavelmente já ficou para trás", disse Carl Tannenbaum, economista-chefe do Northern Trust, uma instituição financeira global sediada em Chicago. As empresas aumentaram os preços no ano passado e não reverteram esses aumentos após a decisão da Suprema Corte. Tanto as tarifas quanto sua implementação errática tendem a prejudicar o planejamento de longo prazo, reduzir investimentos e desacelerar o crescimento, já que as empresas são forçadas a gastar tempo e recursos descobrindo como adaptar sua produção e cadeias de suprimentos. Mesmo assim, no momento, a guerra em escalada com o Irã, que começou há cinco meses com ataques dos Estados Unidos e de Israel, está tendo um impacto muito maior na saúde da economia global do que as tarifas. No Japão, o gabinete do governo disse na sexta-feira (24) que as empresas podem estar repassando os custos aumentados causados pela guerra no Irã em um ritmo ainda mais rápido do que fizeram após a invasão russa da Ucrânia em 2022, o último grande choque energético global. Rotas comerciais de energia essenciais no estreito de Hormuz e no mar Vermelho continuam interrompidas. Os preços do petróleo subiram novamente na semana passada, quando a milícia Houthi apoiada pelo Irã no Iêmen intensificou seu confronto com a Arábia Saudita e abriu uma segunda frente no conflito da região. O pico nos preços do petróleo causou nervosismo no mercado, levando a uma venda de títulos do governo e pressionando as ações para baixo. Nos Estados Unidos, os preços da gasolina atingiram US$ 4 (R$ 20) o galão e as taxas de hipoteca subiram. "A situação no Oriente Médio é, para mim, e pelo que posso ver nos dados, muito mais preocupante para a economia global do que esse show de fogos de artifício das tarifas", disse Paola Subacchi, professora da Sciences Po, em Paris. Na frente comercial, ela disse, "é mais ou menos a mesma história". Talvez nenhuma região do mundo tenha sido mais atingida pelo golpe duplo das tarifas e da guerra do que a Ásia, onde as economias são fortemente dependentes tanto de exportações quanto de energia importada. Vários grandes países asiáticos já negociaram agressivamente para garantir acordos comerciais com Washington. Ainda não está totalmente claro como as novas tarifas impostas por Trump afetarão esses acordos, mas representantes de vários governos estrangeiros disseram que foram informados em particular de que as taxas tarifárias seriam as mesmas negociadas no ano passado. O Japão prometeu US$ 550 bilhões (R$ 2,7 trilhões) em investimentos americanos como parte de um acordo comercial em troca de uma taxa tarifária reduzida de 15%. A Coreia do Sul comprometeu-se de forma similar com dezenas de bilhões de dólares para construção naval e fabricação de baterias, enquanto Taiwan prometeu dezenas de bilhões para expandir a produção de semicondutores avançados. Até agora, as economias na Ásia tiveram desempenho melhor do que o esperado. "A maior conclusão para mim foi o quão resilientes essas economias têm sido a todos esses choques", disse Sonal Varma, economista do Nomura, o maior banco de investimentos e corretora do Japão. Como as negociações se desenrolam entre os Estados Unidos e a China é talvez a arena mais importante nas guerras comerciais renovadas de Trump. "O evento principal em tudo isso é EUA versus China", disse Tannenbaum. "A China mostrou ser uma negociadora comercial muito formidável", disse ele. "Eles vêm se preparando para isso há muito tempo e sabem exatamente onde estão nossas vulnerabilidades." Xi Jinping, líder da China, está planejando uma visita de Estado a Washington em setembro. E ele já mostrou sua disposição de reter minerais críticos para as indústrias de tecnologia e defesa dos Estados Unidos para pressionar o governo Trump no comércio. Mary E. Lovely, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics, reuniu-se recentemente com analistas chineses como parte de um programa regular de intercâmbio. Ela disse que os líderes da China "estão muito confiantes de que seu controle sobre ímãs permanentes e terras raras impedirá o presidente Trump de realmente ir muito além de onde ele já está" nos níveis tarifários. Isso pode significar que a China acabe com tarifas mais baixas do que alguns de seus vizinhos, dando-lhe uma vantagem econômica sobre os concorrentes. O prêmio —acesso mais fácil ao gigantesco mercado americano— é mais valioso do que nunca. Os consumidores americanos têm um enorme apetite por bens e aumentaram seus gastos em um ritmo mais rápido do que os da Europa ou da China.
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