Trump passa o dia sem comentar elei��o, e Milei comemora desempenho de Fl�vio

Trump passa o dia sem comentar elei��o, e Milei comemora desempenho de Fl�vio

Em meio a temores de que a eleição seja alvo de interferência externa, o primeiro turno terminou neste domingo (4) sem que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ou seus aliados mais próximos tenham feito comentários em público sobre o pleito no Brasil. Até a noite deste domingo, após a confirmação de que Flávio Bolsonaro (PL) disputará o segundo turno com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o presidente americano não tinha se pronunciado sobre as eleições brasileiras. O receio de que autoridades internacionais, em particular ligadas a Washington, poderiam interferir abertamente no pleito movimentou tanto a campanha de Lula como a de Flávio. Se de um lado o petista reforçou em seu discurso a defesa da soberania diante de pressões, ameaças de sanções e tarifas aplicadas por Trump, de outro aliados do senador têm insinuado que a ameaça de interferência externa pode servir de justificativa para um suposto golpe ou interferência judicial que impeça eventual vitória de Flávio. Os temores foram amplificados desde que as representações diplomáticas dos EUA e da Austrália no Brasil anunciaram o fechamento na sexta-feira (2) por "questões de segurança". A Polícia Federal não encontrou evidências de suposta ameaça de bomba que teria sido feita pelas redes sociais. A ausência de uma reação imediata de Trump contrasta com a postura adotada por Washington na eleição presidencial brasileira de 2022. Na noite do primeiro turno daquele ano, o então secretário de Estado Antony Blinken parabenizou brasileiros e instituições do país por um pleito que classificou como "bem-sucedido". No dia seguinte, a Casa Branca afirmou que a votação havia ocorrido de maneira "livre, justa, transparente e crível". Se Trump silenciou, outro importante aliado de Flávio, o presidente da Argentina, Javier Milei, lotou suas redes sociais com ataques a Lula e manifestações de apoio ao senador. O sempre movimentado perfil do ultraliberal no Instagram republicou ao menos cinco conteúdos sobre as eleições brasileiras. Um deles colocava lado a lado uma foto do petista preso durante a ditadura militar e outra do argentino como goleiro na juventude. "O passado de Lula/O passado de Milei", dizia a publicação. Outro trazia uma foto de Jair Bolsonaro com os dizeres: "Hoje é por ele". No X, ele compartilhou um vídeo de Flávio indo votar neste domingo. "Fenômeno local", comentou. Na gravação, feita pela LN+, o candidato disse que convidaria Milei para ir ao Brasil. Após os resultados, Milei voltou a se pronunciar. "A liberdade avança no Brasil", excreveu o argentino no X. "Parabéns, querido amigo Flávio Bolsonaro, por esta eleição histórica contra o comunista Lula. O continente americano é de cidadãos que querem viver em liberdade", continuou. "Espero que em breve possamos começar a trabalhar juntos para que a Argentina e o Brasil continuem sendo grandes parceiros comerciais, culturais e políticos." Em seu Instagram, o ultraliberal publicou ainda o mapa da América do Sul quase com o Brasil pintado de azul, assim como quase os países vizinhos atualmente governados pela direita. "Eu vim despertar os leões, e os leões despertaram", diz o texto que acompanha a imagem. Milei foi o mais vocal apoiador de Flávio na América Latina, que elegeu políticos de direita em série no último ano. No final de julho, o argentino foi ao evento de lançamento de campanha de Flávio no Brasil e chamou Lula de "lixo socialista". A ofensa abriu uma crise que desembocou em um rebaixamento inédito das relações bilaterais entre Brasil e Argentina. O governo Trump abandonou a cautela de governos anteriores em Washington e tem manifestado apoio a candidatos ideologicamente alinhados, em particular na América Latina, e, em alguns casos, participado diretamente da campanha. Em 2025, por exemplo, declarou apoio a Milei em pleito legislativo importante para a agenda do ultraliberal. Em novembro daquele ano, apoiou o hondurenho Nasry Asfura, e em junho deste ano, apoiou publicamente o colombiano Abelardo de la Espriella. Em reunião à margem da Assembleia Geral da ONU, o republicano também se reuniu com líderes de direita da América Latina que integram o Escudo das Américas, iniciativa de cooperação em segurança criada pelo governo Trump. Eleições Hoje Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados "Apoiei alguns de vocês, e conquistamos grandes vitórias eleitorais" disse ele. "Acho que meu placar é de nove vitórias em nove disputas: todos que apoiei venceram. Estamos vencendo muito. Estou com vocês até o fim e farei tudo o que estiver ao meu alcance", afirmou o republicano durante o encontro. O receio de ingerência na eleição brasileira cresceu no fim de setembro. Como a Folha mostrou, empresários ligados ao grupo americano Rockbridge, ligado ao vice-presidente americano, J. D. Vance, ajudaram Flávio Bolsonaro com relatórios e consultoria. O senador nega ter recebido financiamento do exterior. Além disso, a AGU (Advocacia-Geral da União) pediu investigações ao MPF (Ministério Público Federal) acerca de possíveis financiamentos do governo Trump a grupos e organizações para atacar instituições brasileiras, como o STF. O pedido teve como base reportagem do jornal britânico The Guardian, segundo a qual o Departamento de Estado norte-americano teria repassado US$ 1 milhão (R$ 5,1 milhões), oriundos do Human Rights and Democracy Fund, ao programa "Countering Lawfare and Censorship in Brazil" (Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil). O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou neste domingo que abriu um procedimento prévio de investigação para analisar suspeitas de interferência e financiamento externo no país. No começo da tarde, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, afirmou que os órgãos de inteligência da Justiça Eleitoral não havia identificado "nenhum indicativo concreto" de interferência externa nas eleições. Reagindo ao anúncio da PF, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro afirmou em publicação no X que os EUA haviam sido "colocados sob investigação" pelo governo Lula e que uma narrativa estaria sendo construída para permitir a anulação de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. A afirmação, porém, vai além do que foi anunciado pela PF. A corporação iniciou uma apuração preliminar, mas não a abertura formal de um inquérito. O procedimento foi encaminhado à Diretoria de Inteligência para verificar se há elementos que indiquem interferência estrangeira no processo eleitoral. Eduardo também insinuou, sem provas, que o STF pode cancelar as eleições no Brasil se seu irmão, Flávio, não vencer no 1º turno. Citando eleições na Romênia em 2024, Eduardo comparou a anulação do pleito romeno pela Suprema Corte do país por interferência externa à eleição brasileira. "Quem for inteligente vai conseguir conectar os pontos", disse Eduardo. Na ocasião, o ultradireitista Calin Georgescu foi acusado pelos serviços de segurança da Romênia de utilizar quase R$ 6 milhões em recursos não declarados. Além disso, a infraestrutura eleitoral do país havia sofrido ataques de hackers da Rússia, o que levou a Corte Constitucional a anular os resultados do primeiro turno. Georgescu foi impedido de concorrer, e o vencedor foi o candidato centrista Nicusor Dan. A líder da oposição da Venezuela, María Corina Machado, também se pronunciou. "Meu reconhecimento a Flávio Bolsonaro, vencedor deste primeiro turno", escreveu ela no X. "Nós, latino-americanos, queremos viver com liberdade, democracia, prosperidade e justiça, e o Brasil tem um peso decisivo no futuro da nossa região." Nobel da Paz de 2025, a política foi por anos o principal nome da oposição à ditadura chavista, mas tem sido escanteada nas negociações com o regime desde que os EUA prenderam Nicolás Maduro e passaram a trabalhar com a líder interina Delcy Rodríguez.

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