Trump constr�i v�nculo com apoiadores ao enaltecer a si mesmo, avaliam especialistas

Trump constr�i v�nculo com apoiadores ao enaltecer a si mesmo, avaliam especialistas

"Em linguística, a gente pode subverter aquela frase ‘diga com quem você anda e eu vou te dizer quem você é'. Simplesmente diga e eu vou te dizer quem você é", reflete o professor Caetano Galindo ao analisar os dados da Folha sobre quase 4.000 falas públicas de Donald Trump. Para ele, o presidente americano se mostra, sobretudo, um narcisista de poucas obsessões, com a ideia de superioridade como a principal delas. Trump está interessado em semear conflitos contra inimigos externos por meio de discursos paranoicos e simples, avalia o linguista e tradutor, também professor de Letras na Universidade Federal do Paraná. Isso se verifica não apenas por Trump expressar confiança em suas falas e pela correlação crescente de raiva e medo com o uso de pronomes da terceira pessoa do plural; é um perfil que também se depreende da estrutura infantil de seus discursos, com baixa variedade vocabular. "Ele veicula ideias muito simples, duras, que precisam ser apresentadas assim". Seis milhões de empregos na Indústria foram perdidos desde o NAFTA, quando 21 milhões de imigrantes ilegais atravessaram nossas fronteiras, pense nisso, muitos dos quais eram criminosos violentos, assassinos, chefes do tráfico e pessoas mentalmente perturbadas. Para Galindo, interpretar Trump demanda ver essa postura discursiva como um elemento essencial de quem ele é e de sua visão de mundo. As falas do republicano ecoam uma tradição da retórica política que remete àquelas de Adolf Hitler, moldadas pelo seu ministro da propaganda Joseph Goebbels: mensagens divisivas, poucas ideias num mesmo discurso e repetidas à exaustão. Nosso espírito voltou, nosso orgulho voltou, nossa confiança voltou, e o sonho americano está crescendo maior e melhor do que nunca. Mesmo assim, o professor não vê Trump como alguém moldado por assessores com discursos calculados para seduzir e persuadir. Para ele, é um orador espontâneo que se dirige a medos primais: "o medo do outro, do diferente. Estes medos servem de combustível para alimentar fúria, raiva e ódio, sentimentos que são agregadores poderosos", afirma. Trump é também alguém que "acredita saber a imagem que as pessoas têm dele" ou que pouco se importa com qualquer definição que não a sua própria, na interpretação do professor. "Ele tem uma autoimagem tão forte e é tão obcecado por essa autoimagem que expressa sua visão de mundo sem freios", diz. "Também acredita que o interlocutor está no bolso dele e, infelizmente, uma parte da realidade americana parece dizer que sim." É um movimento. Não importa onde vamos, juntamos multidões como ninguém jamais viu antes Para o historiador John Abromeit, professor do Buffalo State College, considerar o contexto social é fundamental para compreender o uso da linguagem de líderes políticos. Ele nota semelhanças entre Trump e outros populistas autoritários analisados pelos teóricos do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. A característica fundamental de discursos assim é mobilizar pessoas mais pobres para objetivos políticos contra seus próprios interesses. É desta forma que Trump opera, utilizando populismo autoritário em benefício de oligarquias. Ainda que ele se apresente como um líder que combate elites liberais e progressistas, na prática, suas ações ampliam as desigualdades, avalia Abromeit —esta é a consequência de propostas como cortes de impostos para os mais ricos, enxugamento de programas de saúde como MedicAid, ataques à educação e propostas pouco viáveis de reconstituir a indústria. Em termos de linguagem, esse engano que o político produz pode ser lido em chave psicanalítica de inspiração freudiana, à maneira de autores como Horkheimer e Theodor Adorno, ao analisarem as formas do autoritarismo nas décadas de 1930 a 1960. Trump se dirige a seu público apelando às emoções e ao inconsciente, a fim de que os apoiadores dirijam admiração ao líder e ódio aos rotulados como inimigos. Não à toa, se nota a correlação entre sentimentos como medo e raiva e as referências a "eles" nos discursos de Trump, pontua o historiador. Atribuir as causas dos problemas sociais, políticos e econômicos a determinados grupos e indivíduos é um recurso fundamental de populistas autoritários. Nas falas do republicano, imigrantes e pessoas não brancas ocupam esse papel. A Somália nem sequer é um país. Eles não têm nada que se assemelhe a um país. E, se for um país, é considerado praticamente um dos piores do mundo. Eles vêm para cá, ficam ricos e não têm emprego. A personalização também foi explorada na retórica antissemita do regime nazista, que atribuía aos judeus muito mais poder na sociedade alemã do que de fato tinham, avalia Abromeit. Trump sabe bem qual é sua base e é especialmente a ela que se dirige ao reiterar a postura de conflito. É parte dessa dinâmica enaltecer seu próprio poder para se mostrar digno de confiança. Também produz identificação com esses apoiadores ao se expressar de maneira próxima à destas pessoas. Nós vamos derrotar os democratas da esquerda radical que estão por aí reclamando de tudo. Tudo o que eles fazem é reclamar pra depois quererem colocar homens em esportes femininos e coisas do tipo. "Aqueles que se sentiam isolados e fracos se tornam parte de um coletivo que é personificado neste líder poderoso." É uma figura que possui a força de King Kong e a simpatia de um barbeiro de bairro, diz Abromeit. A mobilização de sentimentos positivos é também parte da construção deste vínculo entre um líder como Trump e seu público. A alegria —terceiro sentimento mais veiculado por ele, atrás de confiança e expectativa— pode ser lida em termos psicanalíticos como uma forma de liberação prazerosa da repressão, segundo Abromeit. No quadro da sociedade americana sob Trump, isso se expressa em situações diversas: na liberação da agressividade como forma legítima e preferencial de ação na política; na crítica aos discursos de diversidade, equidade e inclusão; na reabilitação do orgulho e na celebração da identidade branca e cristã e da figura do homem forte. Nunca deixaremos que nada aconteça ao nosso amado país. Porque somos um país de realizadores, sonhadores, lutadores e sobreviventes. Nossos antepassados iluminaram o mundo com a eletricidade, romperam a força da gravidade, impulsionaram os motores da indústria americana e derrotaram comunistas, fascistas e marxistas em todo o mundo. Tal como em teorias conspiratórias, nas falas de Trump, está fora de questão o uso racional do discurso e o compromisso com a verdade factual, afirma Abromeit. Galindo especula que parte deste apelo de Trump e da forma de se expressar se explica por um movimento mais amplo: a ascensão de uma cultura de informalidade nas formas de comunicação e convívio, que também chegou ao discurso político. Está incluída na receita de Trump a rejeição de instituições como universidades, a imprensa tradicional e advogados e tribunais, usuais mediadores da opinião pública. Essa recusa também revela um lado regressivo, em que se valoriza apenas o que é informal. Novamente, quem se beneficia disso é o populista autoritário, que estimula a suposta destruição das elites em nome do que é verdadeiramente popular. Como lembra Galindo, "Trump pode ter sido o arauto disso ou pode ser só o melhor exemplo disso. Mas não é só ele".

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