Líderes populistas costumam fazer promessas extravagantes, mas no geral procuram ao menos imprimir-lhes alguma verossimilhança. Donald Trump parece ter rompido essa linha de pudicícia política ao sugerir que pagará um "dividendo" de US$ 5.000 a cada adulto americano, caso o Partido Republicano vença as eleições de meio de mandato em novembro. Seus correligionários aparecem mal nas pesquisas, e a perspectiva é a de que o situacionismo perca a maioria na Câmara —registre-se que é normal o partido do presidente, quando conquista a maioria nas duas Casas legislativas, perder pelo menos uma delas no pleito subsequente. O problema da promessa é que ela é pouco crível até para os seguidores mais entusiasmados do republicano. Logo após o discurso de Trump, o vice J.D. Vance, numa tentativa de redução de danos, disse à Fox News que os americanos mais ricos poderiam ser excluídos da benesse. Os Estados Unidos têm entre 240 milhões e 250 milhões de adultos, o que implica uma fatura, na versão plena, de mais de US$ 1,2 trilhão. Se tal montante já seria inviável em tempos normais, ganha ares de suicídio fiscal quando se considera a situação das contas públicas —déficit de US$ 1,8 trilhão por ano, algo entre 5,6% e 5,9% do PIB, e dívida pública acima de US$ 40 trilhões. A argumentação de Trump para respaldar o pagamento —as tarifas alfandegárias— é mais falsa que uma nota de US$ 3. As tarifas que o governo impôs a boa parte do mundo não bastam nem para compensar o prolongamento da redução de impostos que o presidente já determinou. A inverossimilhança não é só econômica, mas política. Há dúvidas sobre a legalidade da medida, que, de todo modo, não pode ser baixada por decreto. Seria necessário aprovar uma lei, o que vai contra décadas de discurso republicano em defesa da responsabilidade fiscal. É claro que Trump, bem ao seu estilo, pode já estar contando com uma rejeição, o que o isentaria de culpa pelo eventual descumprimento da promessa. É temerário quando a retórica do presidente da nação mais rica e poderosa do planeta não se distingue da de um caudilho de república de bananas. A fala de Trump ocorre num momento em que as taxas de juros dos EUA operam em alta devido às preocupações fiscais. O anúncio de medidas irresponsáveis contribui para minar ainda mais a confiança de longo prazo na Casa Branca e no dólar. Trata-se de uma herança maldita que Trump legará ao seu sucessor. editoriais@grupofolha.com.br
Trump age como caudilho de rep�blica das bananas
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.