Tr�gua nos pre�os, riscos � frente

Tr�gua nos pre�os, riscos � frente

A inflação enfim começa a dar sinais mais consistentes de arrefecimento. O IPCA-15 de julho, prévia da inflação oficial calculada pelo IBGE, surpreendeu positivamente ao subir apenas 0,06%, a menor variação para o mês em três anos, puxado sobretudo pela queda dos preços dos alimentos. O alívio se espalha por diferentes componentes do índice, levou consultorias a reduzir suas projeções para o IPCA deste ano e reforça a expectativa de que o Banco Central volte a cortar a taxa de juros na reunião da próxima semana, hoje em 14,25% ao ano. A desaceleração merece ser comemorada. Depois de meses em que alimentos pesaram no orçamento das famílias, produtos como tomate, batata e café registram quedas expressivas. Mais importante, a melhora não ficou restrita aos itens mais voláteis. Medidas de inflação subjacente também mostram perda de fôlego, sugerindo que a desinflação ganha consistência. As boas notícias levaram bancos e consultorias a reduzir suas projeções para o IPCA de 2026. Mas as estimativas permanecem ao redor de 5%, acima do teto de 4,5% da meta perseguida pelo BC. O cenário, portanto, recomenda cautela, não complacência. O Copom deve encontrar espaço para mais uma redução modesta da Selic, mas dificilmente poderá acelerar esse movimento. O principal fator interno de preocupação é a política fiscal expansionista. O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) amplia estímulos para sustentar a atividade no período pré-eleitoral. Indicadores do Instituto Brasileiro de Economia da FGV mostram que o impulso fiscal é muito superior ao sugerido pelo resultado primário das contas públicas. Em uma economia próxima do pleno emprego, a alta dos gastos públicos tende a manter a demanda aquecida, dificultar o trabalho do BC e retardar a convergência da inflação para a meta. Também não faltam ameaças externas. O retorno do fenômeno El Niño pode comprometer safras e reverter parte da recente queda dos preços dos alimentos. Nos Estados Unidos, a disposição do novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, de adotar uma postura mais dura contra a inflação aumenta a possibilidade de juros elevados por mais tempo. Se isso ocorrer, o diferencial de taxas exigido pelos investidores reduzirá o espaço para cortes mais profundos da Selic. Some-se a esse quadro a instabilidade geopolítica. Uma escalada do conflito envolvendo o Irã poderia levar novamente o petróleo para acima de US$ 100 por barril, pressionando combustíveis, fretes e diversos preços. A inflação oferece uma trégua e o Banco Central pode iniciar um ciclo gradual de redução dos juros, desde que mantenha a prudência. Sem disciplina fiscal, com riscos climáticos e geopolíticos relevantes e diante da perspectiva de uma política monetária mais dura nos EUA, o caminho para levar a inflação mais para o centro da meta continua estreito. editoriais@grupofolha.com.br

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