A transição energética depende de uma atividade historicamente associada a conflitos socioambientais: a mineração. Para substituir combustíveis fósseis, o mundo precisará extrair mais lítio, cobre, cobalto e terras raras, muitos deles localizados em territórios indígenas e comunidades tradicionais. Surge, então, uma pergunta inevitável: estamos diante de um modelo de desenvolvimento mais justo ou apenas de uma nova versão do extrativismo, agora legitimada por um propósito ambiental? Essa reflexão foi reforçada pela liderança indígena Patricia Gualinga, do povo Kichwa de Sarayaku, durante a Rio Nature and Climate Week. Para ela, a indústria extrativa promete há décadas operar de forma mais responsável. O desafio continua sendo transformar esse discurso em mudanças concretas nos territórios. Segundo a Agência Internacional de Energia, a demanda por minerais críticos, como lítio, cobre, cobalto e terras raras, crescerá fortemente até 2040, impulsionada pela eletrificação da economia e pela expansão das energias renováveis. A transição energética será global, mas seus impactos continuarão sendo profundamente locais. No Brasil, o Observatório da Transição Energética, iniciativa da Repórter Brasil, do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) e do grupo de pesquisa PoEMAS (grupo de pesquisa e extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade da Universidade Federal de Juiz de Fora) mapeou que projetos ligados a minerais críticos, usinas eólicas e solares, além de linhas de transmissão, incidem sobre 44% das terras indígenas, o equivalente a 278 territórios. O levantamento também mostra que milhares de territórios protegidos já convivem com esses empreendimentos, número que tende a crescer com a expansão dos projetos previstos. Mais do que colocar em xeque a transição energética, esses dados mostram que a proteção territorial precisa integrar o planejamento dos projetos desde o início. Na República Democrática do Congo, importante produtora de cobalto, organizações internacionais seguem registrando problemas relacionados ao trabalho infantil e à baixa rastreabilidade da cadeia de fornecimento. O caso evidencia que a transição energética também depende de padrões mais robustos de governança. No Chile, o Salar de Atacama, responsável por cerca de 30% da produção mundial de lítio, evidencia outro desafio: o uso da água. Segundo relatório da ONU, a mineração já consome grande parte da água disponível na região, levando comunidades locais a reivindicar maior participação na gestão desse recurso. Também existe um argumento legítimo do lado da indústria e de formuladores de política pública: os impactos socioambientais de um projeto minerário dependem, em grande medida, do método de lavra, da governança local e do rigor da fiscalização —e não do fato de o mineral ser "crítico" para a transição energética. Avanços em rastreabilidade, tecnologias de menor impacto e novos marcos regulatórios mostram que é possível conciliar segurança de suprimento com padrões ambientais e sociais mais elevados. Além das questões socioambientais, há um componente geopolítico importante: reduzir a concentração da cadeia de refino em poucos países tornou-se uma questão estratégica para a própria transição energética. O debate, portanto, não é sobre ser contra ou a favor da mineração, mas sobre como ela será conduzida. Processos de consulta às comunidades afetadas, repartição mais equilibrada dos benefícios e transparência sobre os impactos dos projetos não podem ser tratados como etapas acessórias. Precisam fazer parte da própria lógica da transição energética. A descarbonização da economia é um caminho necessário diante da urgência climática. Mas seu sucesso não será medido apenas pela expansão das energias renováveis ou pela redução das emissões de carbono. Será medido também pela capacidade de construir um modelo em que os territórios e as comunidades que fornecem os recursos indispensáveis para essa transformação participem, de forma justa, dos benefícios gerados. Se a economia de baixo carbono pretende representar uma ruptura com o passado, ela precisará transformar não apenas a matriz energética, mas também a forma como nos relacionamos com os territórios que tornam essa transformação possível. Caso contrário, corremos o risco de trocar uma fonte de energia sem abandonar a lógica extrativista que historicamente concentrou benefícios e distribuiu impactos. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Transi��o energ�tica pode repetir erros do passado
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