Track&Field desafia crise do varejo sem d�vida e cresce com lojas reformadas e eventos

Track&Field desafia crise do varejo sem d�vida e cresce com lojas reformadas e eventos

São Paulo Um fantasma ronda o varejo brasileiro, a recuperação judicial. Com juros na estratosfera e erros de gestão, empresas endividadas têm recorrido ao Judiciário para reestruturar dívidas. A Track&Field, de moda esportiva, passa ao largo da crise com uma fórmula que chega a soar excêntrica no setor: dívida zero, nenhuma aquisição e crescimento estritamente orgânico. Com as finanças em ordem, a rede reforma lojas para abrigar cafés e produtos de alimentação saudável e realizou 2.373 eventos no primeiro semestre, a maioria corridas de rua —clientes que compram e correm, diz a empresa, gastam mais ao longo do tempo. Fernando Tracanella, CEO da Track&Field, em loja da empresa na Vila Nova Conceição, em SP - Rafaela Araújo/Folhapress Na entrevista que concedeu ao C-Level, o CEO Fernando Tracanella, 54, egresso do mercado financeiro e antes CFO e líder de expansão da empresa, usou bastante a palavra "consistência" para descrever um modelo de administração pouco afeito a alavancagens e a incursões para além dos limites do negócio principal: vender camisetas, casacos e leggings feitos com materiais com propriedades de leveza, secagem rápida e proteção solar. "A empresa não cai em tentação de fazer movimentos de M&A [fusões e aquisições], algo muito recorrente no varejo", diz. "Na nossa visão, isso poderia acarretar perda de foco e choque de culturas." Para ele, a "grande disciplina financeira que levou a uma situação de dívida zero" é uma das chaves para os bons resultados. É um modelo que, a julgar pelos números mais recentes, funciona. No segundo trimestre de 2026, as vendas ao consumidor cresceram 20,7% em relação ao mesmo período de 2025, para R$ 493,4 milhões; a receita líquida consolidada avançou 15,5%, para R$ 279,7 milhões, e o ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado, 15,9%. A Track&Field descreve-se sem hesitação como varejista, comercializando quase exclusivamente artigos próprios, concebidos e desenvolvidos intramuros. Hoje são 457 lojas (10% próprias), em todas as regiões do país e em Portugal. Um outro país europeu deve entrar no grid brevemente. Nem mesmo o crescimento da Live, concorrente que atua na mesma faixa da Track&Field e mantém inclusive um circuito de corrida de rua de abrangência bastante similar, modificou os planos da pioneira. "A nossa visão é de que o setor cresce numa velocidade que consegue absorver a entrada de novos players", diz o CEO. A empresa foi criada em 1988 pelos primos Fred Wagner e Ricardo Rosset e pelo amigo comum Beto Azevedo para vender camisetas aos colegas de Wagner e Beto num colégio de elite de São Paulo. O ano-chave foi 2011, quando a companhia adotou o modelo de franquias, que possibilitou sua expansão. Em 2020, participou daquela última grande onda de IPOs da B3, mas a ação debutou abaixo da faixa esperada. Em 2026, descolado dos bons números, o papel acumula desvalorização de cerca de 20%, embora o Banco Safra tenha recomendado a compra em fevereiro, prevendo potencial de alta de 27% até o fim do ano. Ao comentar, a pedido da Folha, o desempenho da Track&Field, o consultor Alberto Serrentino parecia ter tido acesso prévio à entrevista de Tracanella. "É um exemplo de empresa muito, muito consistente. Na expansão, na estrutura de capital, no crescimento orgânico. Nunca fizeram M&A, não alavancaram." Para ele, os fundadores "criaram uma marca aspiracional, de posicionamento premium, mas acessível", com margens de lucro "muito saudáveis". "Seus indicadores estão entre os melhores do Brasil." O vento também sopra a favor. Segundo o Top 300 do Varejo Brasileiro, ranking do IRTT (Instituto Retail Think Tank), fundado por Serrentino, as vendas do segmento de moda, calçados e artigos esportivos cresceram 8,6% em 2025, acima dos 6,4% do varejo restrito medido pelo IBGE. O consultor atribui o desempenho ao "aumento do interesse das pessoas por saúde e bem-estar" e até mesmo às canetas emagrecedoras, que "empurram mais gente para a atividade física". Como Serrentino, Tracanella vê no wellness uma espécie de Shangri-lá do varejo. "As pessoas estão se cuidando mais e se cuidarão ainda mais, e com isso o segmento continuará crescendo." Ele destaca ainda a adoção cada vez maior do vestuário esportivo no dia a dia e no trabalho, tendência chamada de "athleisure". O "esforço contínuo de construção de marca", que Tracanella aponta como traço histórico da gestão, não abre muito espaço para disrupções. A venda de produtos terceirizados de alimentação saudável, com curadoria dedicada, em algumas lojas e no ecommerce, é talvez o que mais se aproxima de uma revolução. Esses produtos ganharam lugar no programa de reforma de lojas iniciado recentemente, que amplia o espaço expositivo e eventualmente inclui um café em que são vendidos itens de suplementação alimentar e esportiva. Área de café de loja da Track&Field - Rafaela Araújo/Folhapress A reforma, mesmo que interdite os negócios do franqueado por algumas semanas, tem se mostrado recompensadora: as lojas reformadas apresentaram um crescimento de vendas de 36% a 38% no segundo trimestre de 2026 na comparação anual —mais do que o dobro do crescimento médio das vendas em mesmas lojas da rede. "A reforma cumpre esse duplo papel de trazer um resultado financeiro, uma mudança de patamar das vendas, mas também uma estratégia de proteção de marca, de manter uma loja atual e moderna", disse Tracanella durante teleconferência de resultados do segundo trimestre. Um dos destaques de eventos da empresa é circuito Run Series de corridas de rua, já com 22 anos de existência. Nas contas da companhia, clientes que compram produtos e participam dos eventos apresentam um "lifetime value" (receita que a pessoa pode gerar durante todo o relacionamento com a marca) mais de 50% superior ao de um cliente tradicional. O BTG incluiu o "ecossistema de vendas sociais apoiado por eventos esportivos anuais" como uma das justificativas para a avaliação positiva da empresa no segundo trimestre. "[O consumidor] se relaciona talvez mais profundamente com a marca quando ele participa de uma corrida nossa que tem uma experiência muito diferenciada, ou quando ele compra um produto ou se alimenta em um dos nossos TFCs [cafés]", disse Wagner, CEO da TFSports (plataforma digital, de eventos e de experiências da empresa) e vice-presidente de estratégia e novos negócios da Track&Field, durante a teleconferência de resultados. Isso, afirma ele, aumenta o espaço dedicado à empresa no guarda-roupa dos clientes, ou "share of closet", na definição de Wagner. RAIO-X | TRACK AND FIELD Fundação: 1988 Sede: São Paulo Lojas: 457 lojas (cerca de 10% próprias) Concorrentes: Decathlon, Live, Plié

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