Trabalhadores chineses escrevem sobre cotidiano prec�rio e ganham espa�o liter�rio

Trabalhadores chineses escrevem sobre cotidiano prec�rio e ganham espa�o liter�rio

Um entregador de comida chinês corre de um trabalho para outro, medindo o tempo pelo número de entregas que consegue concluir, e não pela passagem das estações. Ele trabalha em cidades de toda a China para enviar dinheiro à família, mas está longe de casa há tanto tempo que seu filho o chama de "aquele homem", em vez de "pai". Essas são cenas dos poemas de Wang Jibing, um entregador de comida que está entre os vários poetas e escritores chineses que transformaram em arte suas experiências com o trabalho repetitivo nas fábricas e os empregos precários da economia de aplicativos. Esse gênero literário ganhou enorme popularidade nos últimos anos, à medida que muitos chineses se tornaram pessimistas em relação à economia. Para uma parcela significativa da sociedade, os salários estagnaram, o desemprego entre os jovens permanece elevado e a promessa de uma vida melhor em troca de trabalho duro perdeu força. Alguns autores usam a escrita para chamar a atenção para as duras condições de vida de trabalhadores migrantes e de aplicativos, enquanto outros celebram a humanidade que floresce apesar dessas circunstâncias. Seus estilos costumam ser crus e diretos. Escritores como Hu Anyan, um entregador que escreveu um livro de memórias que se tornou best-seller sobre os trabalhos que exerceu na economia de aplicativos, e Fan Yusu, que deixou os filhos para trás para trabalhar como babá residente em Pequim, exploraram esses temas. Eles publicaram ensaios na internet que foram amplamente compartilhados e renderam contratos para livros. Alguns best-sellers foram traduzidos e publicados no exterior. No mês passado, a nova coletânea de poemas de Wang,Voo baixo, ganhou o Prêmio Literário Lu Xun, a maior forma de reconhecimento institucional já concedida ao gênero. Para o público chinês, a curiosidade sobre esses trabalhadores está ligada à ansiedade em relação às próprias perspectivas. A preocupação pode ser especialmente forte entre integrantes da classe média chinesa. "Eles prestam mais atenção a esse tipo de narrativa porque essas histórias podem representar suas vidas no futuro", disse Zhu Ping, professora do departamento de literatura da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA). Trabalhadores de aplicativos e de fábricas estão por toda parte, mas as dificuldades e humilhações que enfrentam raramente são retratadas pela mídia estatal chinesa, controlada pelo governo e inclinada a apresentar uma visão mais positiva. À medida que a influência dessas obras literárias cresceu, autoridades chinesas, preocupadas com o potencial das queixas dos trabalhadores para expor falhas nas políticas públicas ou provocar instabilidade, passaram cada vez mais a tentar moldar esse tipo de literatura, segundo especialistas. A ASCENSÃO DA LITERATURA DE TRABALHADORES MIGRANTES O gênero conhecido como literatura de trabalhadores migrantes acompanha a trajetória de uma força de trabalho que hoje reúne mais de 400 milhões de pessoas. Desde os anos 1980, trabalhadores rurais impulsionam as fábricas e cidades chinesas, mas muitas vezes não têm acesso ao seguro de saúde, ao seguro-desemprego e aos benefícios previdenciários disponíveis aos moradores urbanos. Os primeiros autores do movimento escreveram ensaios e poemas sobre suas experiências nas fábricas. Com o desaparecimento gradual dos empregos industriais, porém, os novos nomes de destaque do gênero são cada vez mais trabalhadores de aplicativos. Um desses nomes é Hu, o entregador que escreveu um livro de memórias que se tornou best-seller. Faço entregas em Pequim foi publicado na China em 2023 e considerado naquele ano o melhor livro pelo Douban, o equivalente chinês do Goodreads. A obra é um relato em forma de diário dos 19 empregos que ele teve ao longo de duas décadas em diferentes partes da China, incluindo classificador em uma empresa de logística, segurança, funcionário de loja de conveniência e entregador. O trabalho de Hu chamou a atenção do público pela primeira vez por meio de um ensaio publicado na internet. O texto detalhava seu ano trabalhando no turno da noite na triagem de encomendas de uma empresa de logística, onde o trabalho era exaustivo e ele tinha dificuldade para se acostumar a dormir durante o dia: Todos os dias, eu passava por uma fileira de casas no caminho para o trabalho. Sentia o cheiro da comida sendo preparada lá dentro e via as pessoas jogadas nos sofás, cansadas e satisfeitas depois de um dia de trabalho. Para mim, aquilo era a verdadeira felicidade. Enquanto isso, eu já estava mais exausto do que aquelas pessoas, e ainda nem tinha chegado ao armazém. Naqueles momentos, eu me amaldiçoava: meu maldito corpo amaldiçoava minha força de vontade, e minha maldita força de vontade fazia o mesmo com ele. Jurava que iria direto dormir quando encerrasse o turno pela manhã. Mas então a manhã chegava, e tudo se repetia como no dia anterior. Eu estava preso em um ciclo. Ding Nan, professora de 35 anos em Wuhan, disse que o livro de Hu foi a primeira obra de literatura de trabalhadores migrantes que leu e que, desde então, passou a procurar outros trabalhos do gênero. Ela afirmou que se sentiu atraída pelas histórias de trabalhadores de aplicativos por causa da presença constante deles em sua própria vida. "Eles são os desconhecidos com quem interagimos regularmente, mas eu nunca soube como eram suas vidas", disse. Algumas obras abordam essa experiência com mais esperança. Em sua coletânea Low Flight (Voo baixo), Wang, o entregador, celebra a dignidade e a resiliência dos trabalhadores de entrega: Quem determina que, com as asas abertas, é preciso voar alto O voo baixo também é um voo Com o vento farfalhando como o canto dos pássaros E as rodas acelerando como estrelas cadentes O aviso de entrega anexado a uma refeição para viagem Em preto e branco, claro e nítido, simboliza a urgência Como um documento legal e uma fórmula mágica —Voo baixo, traduzido por Chen Du e Xisheng Chen. Ding afirmou que as histórias de trabalhadores migrantes também mudaram suas ideias preconcebidas sobre essas pessoas. "A sociedade tem muitos estereótipos sobre eles —pensamos que suas vidas são miseráveis, que são oprimidos", disse. "Mas, quando li esses livros, percebi que eles também são muito otimistas." A obra rendeu a Wang o Prêmio Lu Xun, concedido por uma entidade governamental a cada três anos. A mídia estatal chinesa celebrou a vitória de Wang como um sinal de uma nova paisagem literária utópica, na qual qualquer pessoa pode alcançar o sucesso. Mas existe uma tensão entre os interesses do governo chinês, que minimiza histórias sobre pobreza ou desigualdade social, e a literatura de trabalhadores migrantes, que expõe essas realidades, afirmou Zhu, da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA). Para ela, o prêmio concedido a Wang faz parte do esforço do governo para moldar o gênero, promovendo uma voz mais aceitável —inclinada à esperança e ao otimismo, em vez de à crítica das desigualdades inerentes ao sistema. O governo chinês afirmou que quer estimular as vozes dos trabalhadores como parte do que chama de "nova literatura e novas artes das massas", histórias que ganharam espaço na era digital, sem as limitações impostas pelos tradicionais intermediários da indústria editorial. Isso significa mais recursos e oportunidades para escritores —mas, em grande medida, para aqueles que contam histórias palatáveis, disse Maghiel van Crevel, professor de literatura chinesa da Universidade de Leiden, na Holanda, que estuda a literatura de trabalhadores migrantes. Retratar dificuldades é aceitável, afirmou, mas relacionar essas dificuldades às políticas do governo "seria cruzar uma linha vermelha e tornaria impossível publicar". Van Crevel ressaltou, porém, que receber apoio institucional não significa necessariamente que um escritor tenha "se vendido". A recepção de Wang pelas autoridades chinesas "não necessariamente torna sua escrita menos autêntica", afirmou. DA LINHA DE PRODUÇÃO À DEFESA DOS TRABALHADORES Autores como Zheng Xiaoqiong continuaram a se manifestar em defesa dos direitos dos trabalhadores mesmo depois de alcançar reconhecimento no mercado editorial. Zheng ganhou destaque na China nos anos 2000 por seus poemas que retratavam a monotonia e o esgotamento enfrentados por mulheres nas fábricas. Ela descreveu chefes exploradores, trabalhadores que sofreram amputações de dedos ou doenças ocupacionais e jovens mulheres forçadas à prostituição: os produtos que passam e o tempo entrelaçado são rapidamente engolidos envelhecer dez anos que passam como água um enorme cansaço flutua pela mente por muitos anos ela está presa aos parafusos um parafuso dois parafusos girando para a esquerda para a direita prendendo seus sonhos e sua juventude a algum produto veja sua juventude pálida correndo de uma aldeia no interior para uma fábrica à beira-mar até chegar a uma prateleira na América — Mulher Trabalhadora: juventude presa a uma estação, traduzido por Eleanor Goodman. Zheng recebeu prêmios literários e transformou sua escrita em uma vida melhor e em uma carreira em uma revista. Ela também continuou a se manifestar sobre os problemas enfrentados por trabalhadores na China e no mundo. "Eu sempre esperei que aqueles na China que tiveram a sorte de alcançar mobilidade social ascendente possam olhar para trás e estender a mão àqueles que ainda estão atolados, assim como eles um dia estiveram", disse em entrevista. "Não podemos mudar a realidade com a poesia", afirmou. "Mas temos a responsabilidade de falar."

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