Tortura ou juros?

Tortura ou juros?

É público, notório e está no YouTube para quem quiser ver. Flávio Bolsonaro, no debate para a Prefeitura do Rio de Janeiro, em 2016, treme nas bases, quase desmaia, faz cocô nas calças e é segurado pelos candidatos Jandira Feghali e Carlos Osório. Segundo relato de Jandira, médica, tenta ajudá-lo, mas papai Jair, mais preocupado com sua reputação de apoiador da ditadura do que com a vida do filho, grita "comunista não toca no meu filho!", enquanto manda o zero um se recuperar fazendo flexões. Não surpreende que anos mais tarde, enquanto centenas de milhares de brasileiros morriam de Covid, ele oferecia cloroquina ao povo e às emas do palácio. A biologia tem duas explicações para, diante do desespero, um animal se borrar. Razão número 01: para a fuga, todo o sangue deve ser enviado aos músculos. Cancela digestão, manda embora o que tá no bucho e corre! Razão número 02: a fuga, durante milênios, na selva, era pra impedir que fôssemos comidos por um predador. Caso o leão, o leopardo, a onça ou o urso encontrem sua presa com esse, digamos, tempero, podem perder o apetite e ir em busca de um PF mais limpinho. Flávio, num mero debate, se comporta como presa. "Imbrochável, imorrível e incomível" é o lema do pai, estampado na medalha que deu a Trump, Milei e outras figuras patéticas do distópico século 21. É muito significativo que esses homens, invocando tanto a virilidade, sejam os que mais dela carecem. Como cantou Vinicius, "O homem que diz dou (não dá)/ Porque quem dá mesmo (não diz)/ O homem que diz vou (não vai)/ Porque quando foi já não quis". "Covardia" tem dois significados, em português. Pode ser quem bate no mais fraco ou quem defeca diante do perigo. Não raro, os dois significados cabem à mesma pessoa. Quem não tem coragem para enfrentar o mais forte geralmente pisa no mais fraco. Com o mais fraco amarrado, pendurado de cabeça pra baixo num pau de arara, fica ainda mais fácil bater. Os Bolsonaros preferem exibir a coragem assim. Jair dedicou seu voto, no impeachment, ao torturador-coronel Brilhante Ustra. "O terror de Dilma Rousseff". Homem que sequestrou crianças de 3 e 5 anos e as levou para ver a mãe torturada. Flávio abrigou em seu gabinete de deputado mãe e irmã de Adriano da Nóbrega, a quem concedeu a maior condecoração do estado do Rio de Janeiro, a Medalha Tiradentes. Quando recebeu a medalha, Adriano estava preso por homicídio. Afastado da PM, Adriano era guarda-costas e matador de aluguel de bicheiros cariocas. No documentário "Vale o Escrito", sua viúva diz que o que ele mais gostava de fazer na vida era torturar. Pegar um inimigo e passar o fim de semana seviciando-o. Esses são os ídolos da família Bolsonaro. Não a Margaret Thatcher, o Stuart Mill nem o Delfim Neto, como querem dar a entender os que se escandalizam com juros, mas tampam o nariz pra tortura (leiam o texto do João Moreira Salles: https://piaui.uol.com.br/web/o-que-esses-brasileiros-sabem/) A direita brasileira não tem um histórico muito bom. Mesmo assim, se rebaixar a essa laia, primeiro com o pai, agora com o filho, é sujar a mão de sangue. Tiradentes, humilhado com a medalha dada a Adriano da Nóbrega, treme em seu túmulo. Qualquer um que seja contra sequestrar crianças e dar eletrochoques em seres humanos de cabeça pra baixo também deveria tremer. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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