Toda conversa com meu companheiro vira briga, como saio dessa din�mica?

Toda conversa com meu companheiro vira briga, como saio dessa din�mica?

Segundo o Gottman Institute, referência no estudo da conjugalidade, 69% dos problemas de um casal não são resolvíveis e nosso grande problema é querer resolver em vez de conviver. A dificuldade em conviver é, para mim, a causa raiz desta transformação quase que automática de conversa em briga. Conviver com pontos de vista conflitantes, sentimentos ambíguos e, sobretudo, com que traços de personalidade e valores do outro serão raramente modificados numa relação. Já perdemos a conta de quantas brigas começaram pelo atraso do marido no jantar da cunhada e acabaram escalando para "você sempre coloca seu trabalho antes de tudo", "você é egoísta", "você nunca respeitou minha família". Do fato para o caráter é um pulo. Assim como do incômodo para a acusação. Essa dinâmica acusatória se instala porque a maioria de nós cresceu em ambientes invalidantes. Ao compartilhar dores em casa, muitos ouvimos "você é muito sensível", "isso é coisa da sua cabeça". Décadas de emoções desmentidas geraram uma estratégia de sobrevivência que tem matado nossos vínculos: em vez de nos autorizarmos a compartilhar um incômodo, acreditamos que a validação virá se tivermos razão. E se eu preciso estar certa para estar frustrada, o outro precisa estar errado. Aqui deixamos de ser parceiros e nos tornamos adversários. Para fortalecer o argumento, sacamos duas cartas clichês da briga conjugal: o empilhamento de argumentos, no que chamo de livre associação de mágoas, danos e provas; e a generalização apoiada nas palavrinhas mágicas "sempre" e "nunca". Começamos falando do atraso no jantar da irmã, associamos com o dia em que deixou o filho esperando uma hora na porta da escola sem atender o celular em 2019... E despejamos anos de mágoa contida tentando encadeá-las de forma lógica para provar que ele "sempre faz isso" ou "nunca se prontificou a...". Não funciona: o outro também entra na livre associação, se defende de qualquer um dos elos e a contra-ataca abrindo outras mágoas. Ele lembra do dia em que saiu de uma reunião para ver o balé da filha, e quem não apareceu foi ela. Ele está preso ao episódio de 2019 e você está no jantar de ontem. Linhas cruzadas, afiadas, que nos prendem num labirinto de acusações. Na tentativa desesperada de dar um "xeque-mate", repetimos a nossos companheiros adultos as mesmas invalidações genéricas que nos feriram na infância: "você é histérica", "você é egoísta". Ao escolher palavras que descrevem caráter, e não implicações objetivas sobre o ocorrido, incorremos no que a psicoterapeuta belga Esther Perel chama de erro fundamental de atribuição. Tomamos as ações do outro como confirmação de falta de caráter, enquanto justificamos as nossas como algo circunstancial. Se eu atraso, é porque estava no trânsito. Se ele atrasa, é porque não respeita a família. "Se invertêssemos a lógica, dando ao outro a mesma complexidade que reservamos a nós, já teríamos um ponto de partida", defende Perel em entrevista recente para mim, aqui na Folha. Erramos também ao ignorar que toda conversa carrega três camadas simultâneas: a conversa sobre o que aconteceu, a das emoções e a da identidade. É a tese de Stone, Patton e Heen em "Conversas Difíceis". Conversas viram brigas porque suprimimos a segunda camada, já que não aprendemos a dizer "fiquei chateada", "estou me sentindo sozinho", e acabamos hiperfocando na terceira, duvidando da relevância de falar apenas do que aconteceu agora. Assim, apelamos, pulamos etapas e simplificamos comportamentos, gerando um efeito rebote. Quando digo "você é egoísta", não estou mais falando do jantar: estou dizendo a ele quem ele é aos meus olhos. O que se fere ali é o ideal de eu. Surge então o medo de ser menos amado, menos admirado, de perder o lugar que ocupa na minha vida. E quem se sente ameaçado não escuta, se defende. A nomeação que usamos para sermos levadas a sério é o que mais desgasta o amor que tentávamos proteger. A polarização chegou à sala de casa. E, ao contrário da política, onde ela se instala pelo excesso de diferença, no amor corrói porque falta espaço para a contradição e para a ambivalência. Mas, ao contrário da política, onde ela se instala pelo excesso de diferença, no amor corrói porque falta espaço para a contradição e para a ambivalência. Sair dessa dinâmica passa por baixar a guarda, baixar o tom, baixar as réguas rígidas que determinam um lado certo e, portanto, um errado, e trocar a prova de razão pelo compartilhamento de sentimentos presentes e pedidos concretos. "Você é irresponsável com horários" é acusação; "quero que a gente se comprometa a chegar na hora nos compromissos da minha família" é pedido. Ouvir de volta "então prefiro domingo, porque na sexta eu sempre atraso" não é derrota, é abertura. E ali cabe dizer "fiquei triste de estar sozinha em mais um jantar" e ouvir "ando ansioso, essa vaga de diretoria não sai". Duas verdades que convivem. Não é preciso ter razão, é preciso ter espaço, foco e paciência. Foco porque, como sempre há mágoas guardadas, é preciso abordá-las uma de cada vez, como quem desfaz um nó: puxando um fio só, sem apertar o laço. Paciência porque, mesmo com toda a boa vontade, pode ser que a conversa trave. Durmam brigados. A sabedoria popular manda o contrário, mas é justamente por nos levarmos ao limite para concordar antes de apagar a luz que nos machucamos. Nem sempre vamos concordar. Podemos, no dia seguinte, ainda nos respeitar como duas pessoas complexas e ambíguas que se amam, que se machucaram e que, juntas, podem acolher as dores, evitar novos danos e conviver com os 69%. Todas Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.