Há dias em que acordamos e o mundo parece ter regredido décadas. Dias em que a violência contra a terra e a violência contra as mulheres se revelam como duas faces da mesma moeda, a moeda de um sistema que nos quer caladas, submissas e destituídas. Nesta semana, fui atravessada por duas notícias que, à primeira vista, não têm nada a ver uma com a outra. A primeira: o Senado Federal acabou de aprovar, em votação relâmpago e sem passar por comissões temáticas, o projeto que reduz em quase 486 mil hectares da Floresta Nacional do Jamanxim no Pará. A segunda: no Afeganistão, o Talibã aprofundou seu regime de terror contra as mulheres, com execuções públicas, proibições de estudo e trabalho, e um sistema que a ONU já classifica como apartheid de gênero. Pode parecer que nada conecta a Amazônia ao Afeganistão. Mas, como mulher, eu vejo a conexão com clareza dolorosa: em ambos os cenários, corpos, da terra e de mulheres, são tratados como propriedade a ser usurpada, reduzida, explorada. A Floresta Nacional do Jamanxim foi criada em 2006 como compensação ambiental pelo asfaltamento da BR-163. Desde então, sofre com problemas fundiários e especulação imobiliária por grileiros. É a maior flona do Brasil e a terceira unidade de conservação da Amazônia mais desmatada. O projeto aprovado no Senado não apenas reduz a floresta, ele transforma a área retirada em uma Área de Proteção Ambiental que legaliza grileiros e permite agropecuária e mineração. Na prática, legaliza o que antes era crime. Ambientalistas já alertam que a redução incentivará o desmatamento e novas ocupações ilegais, e não é difícil prever o que vem depois: fogo, gado, soja e ouro. Enquanto isso, do outro lado do mundo, as mulheres afegãs estão sendo apagadas. Desde que o Talibã retomou o poder em 2021, elas foram privadas de seus direitos fundamentais: não podem frequentar o ensino secundário ou superior, não podem se candidatar à maioria dos empregos, não podem sair de casa sem um homem acompanhando. Em junho de 2026, dezenas de mulheres foram detidas em Herat por violações das regras de vestimenta e, quando protestaram, forças talibãs atiraram contra a multidão, matando duas pessoas, incluindo uma criança. O relator especial da ONU afirma que o regime utiliza o Judiciário para consolidar um sistema de opressão, perseguição e dominação de gênero, e o alto comissário da ONU foi ainda mais direto: o que ocorre no Afeganistão é um apartheid de gênero. A linha que une a Floresta do Jamanxim e as mulheres do Afeganistão é a da ganância, da cumplicidade internacional e do desespero. Como mulher, vejo nas afegãs o que o autoritarismo misógino pode nos fazer, e na Amazônia, o que a ganância e a impunidade vêm fazendo ao planeta. Não podemos permitir que projetos de destruição das florestas prossigam, assim como devemos cobrar dos governantes mundiais o reconhecimento do apartheid de gênero como crime contra a humanidade no Afeganistão. A luta é contra a lógica de que alguns podem tomar tudo, a terra, os corpos e o futuro, enquanto o resto assiste. Escrevo para denunciar e lembrar que, assim como a floresta, as mulheres não serão reduzidas sem lutar. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Terra e mulheres s�o tratados como propriedade a ser usurpada
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