Nesta era do descartável, fui surpreendida com nossa própria comemoração das bodas de ouro (50 anos de casados). Para mim, sempre soava como algo quase inatingível, prerrogativa de casais perfeitos ou de velhos acomodados. Nos últimos meses tenho me perguntado sobre o que contribuiu para chegarmos aqui, imperfeitos, desacomodados e felizes. Lembrei das instruções recebidas nas reuniões de jovens da Igreja Batista de origem: para um bom casamento é preciso desenvolver a relação em várias áreas: iniciar cultivando intimidade mental e emocional, pela partilha dos interesses e sentimentos. Também reservar tempo para a intimidade espiritual, pela leitura conjunta de textos sagrados. E, no aspecto físico, sentir se há "liga" entre os corpos. Com a recomendação de que esta liga vá crescendo devagar, e não seja a prioridade durante o namoro... Ensino ultrapassado e cafona? Escutando durante décadas meus pacientes falando sobre seus casamentos, constato que ainda são conselhos sábios a respeito de felicidade conjugal. A vida é feita de várias dimensões, e numa convivência longa importa que sejam cultivadas. Talvez cause estranhamento que a espiritualidade seja tão relevante. Basta lembrar que, para a maioria das religiões, o casamento é sagrado, realizado simultaneamente na terra e no céu, por assim dizer. O cônjuge é recebido como dádiva divina, portanto, também da ordem do sagrado. Isso traz bênçãos e responsabilidades: a união se torna mais completa e complexa, encorajando a intimidade para além do corpo. Com isto, a própria sexualidade adquire maior profundidade. Espiritualidade não é oposta à sexualidade, como se lê no Cântico dos Cânticos da Bíblia. Quando a dimensão de eternidade permeia a relação do casal, instala-se um outro anseio que não o da satisfação imediata: "Assim, em vez de máquinas desejantes insaciáveis e descartáveis, podemos nos tornar pessoas abertas e despertas ao mistério e à profundidade na intimidade com outra pessoa, reaprendendo a amar com misericórdia e ternura", expressam Clarice Ebert e Carlos Hernández, terapeutas de casais. Em outras palavras, não é a religiosidade em si que aumenta a satisfação conjugal, mas o reaprendizado do amor, "com misericórdia e ternura". Essa via é reforçada pela pesquisa de Day e Acock, publicada no Journal of Marriage and Family. As entrevistas com 500 famílias religiosas apontam que a qualidade da relação do casal é boa quando a religiosidade fomenta a prática de "virtudes relacionais", como capacidade de perdoar, de se sacrificar e de se comprometer com o outro. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Estas virtudes podem se expressar de forma bem concreta —o cônjuge que se converte e deixa de beber, se drogar ou jogar em apostas; se torna mais companheiro e traz seu dinheiro para casa. Também aparece no comportamento virtuoso do cônjuge que é instruído em sua religião a não guardar ressentimentos já não traz à tona os mesmos erros do passado porque conseguiu perdoar. Por vezes, apenas em processos de terapia que se constrói a liberdade para deixar o velho hábito de culpar os outros; responsabilizar-se por suas ações é coisa de gente madura! A pesquisa acima põe em cheque as afirmações genéricas de que a frequência a serviços religiosos é relevante para a melhora da relação conjugal. Pois, como apontam as críticas feministas, doutrinas religiosas até reforçam a desigualdade entre homens e mulheres, acarretando opressão e desqualificação delas. Conforme Day e Acock, a boa qualidade da relação depende mais do que é praticado entre os cônjuges do que da crença em si. Hoje pela manhã trabalhei na manutenção do meu pequeno jardim. Encontro ali uma boa metáfora para o cultivo do casamento: plantas precisam de sol, água, adubação, poda, novas mudas. Várias dimensões são necessárias para que fique bonito... Assim como nossa relação!
Terapeuta crist� celebra bodas de ouro em tempos l�quidos
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