Após uma campanha pobre em ideias, mas rica em ataques a reputações, sem a apresentação de soluções para o país e com o recorde de 33,4 milhões de ausentes, houve uma vitória expressiva do bolsonarismo. Flávio Bolsonaro (PL), o número 2 do clã, chega ao segundo turno com grandes chances de vitória daqui a 20 dias. Cabe logo a primeira pergunta: quem seria, filosoficamente, o bolsonarista —além de ostentar a pura e simples condição de seguidor do messiânico e mítico patriarca, ex-presidente, ou de seus descendentes? Acreditar que não devemos nos submeter à vacinação? Que a Terra é plana? Que as Forças Armadas seriam o quarto poder? Que não houve golpe militar em 1964? Que Brilhante Ustra não foi torturador? Lutar pelo fechamento do Congresso e do STF, como pregam muitos adeptos em manifestações pelo país?É sintomático que o day after das eleições seja exatamente o dia do aniversário da Constituição de 1988. A mesma Carta pode vir a ser solapada, em breve, nos termos dos famosos enunciados teóricos de Ziblatt e Levitsky. Para os cientistas políticos, os autoritários acessam o poder pela via das eleições democráticas. Uma vez instalados, iniciam um progressivo e irreparável processo de deterioração das instituições democráticas. Como adverte Daron Acemoglu, Prêmio Nobel de Economia em 2024, sem instituições fortes não existe evolução nem desenvolvimento possível. "Como as Democracias Morrem", best-seller mundial dos mencionados professores de Harvard, relata essas experiências em diversos países, como os Estados Unidos de Donald Trump; a Hungria de Viktor Orbán; a Turquia de Recep Erdogan; a Venezuela de Hugo Chávez; o Brasil de Jair Bolsonaro. E agora poderemos viver uma nova experiência, caso Flávio vença as eleições no segundo turno.Chama a atenção que, apesar de 82,7% dos entrevistados em pesquisa realizada pelo Inac (Instituto Não Aceito Corrupção), em parceria com o Datafolha, se declararem muito ou extremamente preocupados com a corrupção, nenhum dos dois candidatos que foram para o segundo turno disse quais planos tem para preveni-la ou combatê-la. Parece ser um problema inexistente, assim como as emendas parlamentares, cujo montante explodiu. Mesmo à beira de um colapso fiscal, nada se fala a respeito. O Brasil que sai das urnas deu uma guinada à direita, talvez não simplesmente porque os eleitores tenham mudado sua visão de mundo, mas muito mais como reação negativa ao lulopetismo e aos seus sinais de esgotamento. De forma arrogante, Lula (PT)subestimou o adversário, e seu partido não conseguiu se adaptar à dinâmica dos novos tempos nas redes sociais. Já a ultradireita soube dizer o que os eleitores queriam ouvir.Some-se a isso o "fator STF", mergulhado na maior crise de sua história, onde, após uma deplorável sessão, foi captada por um fotojornalista a imagem de ministros às gargalhadas, mesmo diante dos graves acontecimentos. Os eleitores entenderam que zombavam deles e fizeram a conexão de Lula com a crise. A resposta veio nas urnas, especialmente nas escolhas para o Senado, criando condições para o impeachment de ministros. Tempos complexos para o cidadão, seja quem for que vença as eleições de 25 de outubro. Preparemo-nos! TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Tempos complexos pela frente
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