Duas pessoas querem chegar aos 65 anos com R$ 2 milhões, em valores de hoje. Ambas conseguem uma rentabilidade de 5% ao ano acima da inflação. A primeira começa a investir aos 30 anos. A segunda deixa para começar aos 50. Quanto cada uma precisará guardar por mês? A diferença é enorme. Quem começa aos 30 anos precisa investir aproximadamente R$ 1.800 por mês. Quem espera até os 50 precisa de cerca de R$ 7.600. O objetivo e a rentabilidade são os mesmos. O que mudou foi apenas uma variável: o tempo. Esse exemplo ajuda a entender uma das ideias mais importantes do planejamento para aposentadoria. Existem três grandes alavancas que determinam quanto patrimônio você conseguirá acumular: tempo, contribuição e retorno. Você pode compensar a falta de uma delas com as outras, mas não pode ter pouco das três. O tempo talvez seja a mais valiosa porque é a única que não pode ser recuperada. Quem começa cedo permite que os rendimentos obtidos em um ano também passem a render nos anos seguintes. Aos 50 anos, você pode aumentar sua contribuição ou mudar sua carteira para buscar mais retorno, mas não consegue comprar os 20 anos que deixou passar. O preço dessa espera aparece claramente na conta. Para alcançar os mesmos R$ 2 milhões aos 65 anos, quem começa aos 40 precisaria investir cerca de R$ 3.400 por mês. Aos 50, o esforço sobe para R$ 7.600. Adiar o planejamento não significa apenas investir por menos tempo. Significa transferir uma parcela cada vez maior do esforço para o seu salário futuro. É justamente aí que aparece a segunda alavanca: a contribuição. Quem perdeu dez anos pode compensar parte desse tempo aumentando quanto investe todos os meses. Ganhar muito não significa necessariamente construir uma aposentadoria confortável. Uma pessoa que recebe líquido R$ 20 mil por mês e gasta R$ 18 mil pode estar se preparando pior do que outra que recebe metade, ou seja, R$ 10 mil, mas consegue investir R$ 4.000 regularmente. Para a aposentadoria, importa não apenas quanto entra na conta, mas quanto permanece investido. A contribuição também deveria acompanhar a evolução da renda. É comum alguém começar poupando R$ 1.000 quando ganha R$ 10 mil e continuar investindo o mesmo valor anos depois, mesmo recebendo duas vezes mais. Se o padrão de vida aumenta, mas a poupança não acompanha, cresce também a distância entre a aposentadoria desejada e aquela que o patrimônio será capaz de financiar. A terceira alavanca é o retorno. Voltemos à pessoa que começou aos 30 anos investindo R$ 1.800 por mês. Se obtiver 5% ao ano acima da inflação, chegará aos R$ 2 milhões desejados. Com retorno real de apenas 4%, acumularia cerca de R$ 1,6 milhão. Com 6%, chegaria a aproximadamente R$ 2,5 milhões. Um ponto percentual a mais ou a menos, repetidos por 35 anos, produzem uma diferença enorme. Mas há uma armadilha nessa conta. Retorno não é uma variável que podemos simplesmente escolher. Rentabilidades esperadas maiores normalmente exigem assumir mais risco. Quando alguém percebe aos 50 anos que acumulou pouco, pode surgir a tentação de compensar o atraso procurando investimentos mais agressivos. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Existe aí uma contradição. Quanto mais atrasado você está, maior pode ser a tentação de buscar retorno. Mas, com menos tempo até a aposentadoria, menor pode ser sua capacidade de esperar a recuperação de uma grande perda. Tentar compensar 20 anos de atraso apenas aumentando o risco pode transformar um problema de planejamento em outro ainda maior. Por isso, todas essas contas devem ser feitas considerando retornos acima da inflação. Dizer que você terá R$ 5 milhões daqui a 30 anos significa pouco sem saber o que esse dinheiro será capaz de comprar. Pensar em valores de hoje permite relacionar o patrimônio futuro ao padrão de vida que você deseja preservar. Chegar ao patrimônio planejado ainda não encerra a conta: depois da aposentadoria, será preciso transformá-lo em renda e definir por quanto tempo ele deverá sustentá-lo, questões às quais voltaremos nos próximos artigos desta série. Por enquanto, vale guardar uma regra simples. Na aposentadoria, existem três grandes alavancas: tempo, contribuição e retorno. Você pode compensar a falta de uma delas com as outras. O que dificilmente funciona é ter pouco tempo, poupar pouco e esperar que um investimento extraordinário resolva a conta. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Tempo, aportes ou retorno: qual deles pesa mais na sua aposentadoria?
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