Temendo demiss�es provocadas pela IA, parlamentares dos EUA buscam formas de ajudar trabalhadores

Temendo demiss�es provocadas pela IA, parlamentares dos EUA buscam formas de ajudar trabalhadores

Washington | The New York Times A rápida ascensão da inteligência artificial alimentou temores de que computadores poderosos possam um dia substituir os seres humanos, deixando milhões de americanos sem emprego e sem renda estável. É um cenário apocalíptico, que poderia sobrecarregar a capacidade do governo de amparar o contingente crescente de desempregados. E a mera possibilidade já chamou a atenção do Congresso, onde parlamentares começam a analisar formas de fortalecer a rede de proteção econômica do país antes que seja tarde demais. Robôs humanoides demonstrando trabalho em uma linha de produção de smartphones em conferência na China - Tingshu Wang - 19.ago.26/Reuters Nos últimos meses, democratas e republicanos apresentaram uma série de projetos de lei destinados a compensar as possíveis perdas de empregos decorrentes do avanço da IA. As propostas variam em alcance e custo, mas, em conjunto, refletem uma apreensão cada vez maior em Washington de que o governo esteja atrasado nos preparativos para uma ampla transformação tecnológica. A proposta mais recente deve ser apresentada na próxima semana: um projeto de democratas, entre eles o senador Ron Wyden, do Oregon, principal representante de seu partido na comissão do Senado responsável pela elaboração de normas tributárias, que ampliaria significativamente o programa de seguro-desemprego do país. Os atuais benefícios do seguro-desemprego cobrem uma parcela dos salários dos americanos sem trabalho, em geral por até 26 semanas. Pelo projeto de Wyden, o Congresso forneceria ajuda adicional em períodos de desemprego elevado. Além disso, haveria até 26 semanas extras de assistência para ajudar pessoas que perderam o emprego em razão da tecnologia a adquirir novas competências. O projeto inclui outras melhorias em um programa federal essencial da rede de proteção social, cujas fragilidades ficaram evidentes —e em grande parte não foram resolvidas— durante a pandemia. Com a IA, disse Wyden, torna-se cada vez mais urgente corrigir essas deficiências, enquanto o país se prepara para "um dos maiores impactos econômicos sobre a economia na história dos Estados Unidos". "Acho que seria uma irresponsabilidade não nos prepararmos, porque estamos em uma situação na qual muitos cidadãos sentem o temor crescente de perder o emprego para a IA", afirmou. "E o Congresso tem a responsabilidade de ajudar o país a se preparar." A chegada da IA representa um teste político decisivo para a capital americana, onde formuladores de políticas, marcados pela divisão, demoram a agir, exceto em momentos de crise. Essa dinâmica contrasta com o ritmo vertiginoso do desenvolvimento no Vale do Silício, onde muitos acreditam que a IA possa prenunciar transformações econômicas rápidas e profundas. Ao falar em uma conferência global neste mês, um dos cofundadores da Anthropic disse que a produção dos Estados Unidos poderia crescer quase 50% até 2030. Mas o CEO da mesma empresa, Dario Amodei, combinou previsões otimistas de crescimento com alertas mais sombrios de que a IA poderia virar de cabeça para baixo a vida de milhões de trabalhadores. Por enquanto, os economistas não veem evidências de que a IA tenha alterado o mercado de trabalho em grande escala. Ainda assim, começam a surgir alguns "obstáculos à contratação relacionados à IA", segundo um relatório divulgado nesta semana pelo Goldman Sachs, que constatou que a tecnologia contribuiu recentemente para um crescimento do emprego abaixo do esperado em alguns setores mais suscetíveis a mudanças tecnológicas. Martha Gimbel, diretora-executiva do Yale Budget Lab, ressaltou que os sinais ainda não indicam que a IA esteja produzindo um efeito macroeconômico. Mas também destacou que o trabalho de mensurar essas mudanças em tempo real era "historicamente incomum" e difícil. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões"No auge da Revolução Industrial, as pessoas não estavam tentando adivinhar se os tecelões já haviam sido substituídos", disse ela. A incerteza começou a chamar a atenção em Washington, onde democratas e republicanos encontraram um ponto em comum na ideia básica de que o governo deve buscar maneiras melhores de medir os efeitos da IA. Um desses projetos, elaborado pelos senadores Josh Hawley, republicano do Missouri, e Mark Warner, democrata da Virgínia, exigiria que as empresas fornecessem informações mais abrangentes sobre demissões relacionadas à IA. "Na verdade, acredito que, em um horizonte mais longo, de cinco anos ou mais, a IA provavelmente criará categorias inteiramente novas de empregos", disse Warner. "Mas o que isso significa nesse intervalo? E ainda não temos dados de qualidade." Apesar do apoio bipartidário, o projeto e outras medidas semelhantes estão parados no Capitólio, onde os republicanos, na maioria, seguiram o presidente Donald Trump ao adotar uma abordagem de não intervenção em relação à IA. Bret Swanson, especialista em tecnologia da Heritage Foundation, de orientação conservadora, disse que a resistência talvez decorra do fato de os republicanos não quererem fazer nada que possa "prejudicar esses enormes investimentos em IA, que estão sustentando uma economia que, de outro modo, talvez estivesse enfrentando turbulências". Segundo Swanson, isso afetou até mesmo o debate sobre as implicações para os trabalhadores, que poderia "chamar a atenção para os aspectos negativos" da IA aos olhos de uma população cética. Os principais assessores de Trump rejeitaram qualquer sugestão de que a IA possa provocar demissões em massa. Em contraste, muitos democratas ainda veem o desemprego em larga escala como uma ameaça crescente e, em resposta, as lideranças do partido vêm propondo medidas destinadas a ajudar os americanos afetados pelas mudanças tecnológicas. A lista de projetos inclui uma iniciativa do senador Mark Kelly, democrata do Arizona, para tributar os lucros das gigantes da tecnologia e criar um novo fundo federal. O fundo ajudaria a financiar benefícios e capacitação para trabalhadores que perderam seus empregos. Outra proposta, apresentada por parlamentares entre os quais o deputado Greg Casar, democrata do Texas, tributaria empresas de tecnologia e destinaria os recursos a investimentos em infraestrutura capazes de gerar empregos. Wyden disse acreditar que a reação contrária à IA estava "começando a abrir os olhos de algumas pessoas" no Vale do Silício. Mas reconheceu que as empresas de IA não apoiaram sua nova proposta, chamada Lei de Estabilidade e Oportunidade para os Trabalhadores. A medida conta com o apoio de outros democratas, entre eles Michael Bennet, do Colorado, Elizabeth Warren, de Massachusetts, e Chuck Schumer, de Nova York. Se aprovado, o projeto elevaria o valor mínimo do seguro-desemprego, que varia de um estado para outro, mas, em média, cobre menos da metade da renda anterior dos trabalhadores, segundo defensores do programa. Também ampliaria o grupo de pessoas aptas a receber o auxílio. Por enquanto, a proposta não tem uma estimativa oficial de custo, e Wyden não incluiu uma fonte de recursos para custear os benefícios, atualmente financiados por tributos sobre a folha de pagamento dos empregadores. Em outros projetos, ele defendeu a tributação das gigantes da tecnologia e de seus centros de dados como forma de garantir que "as grandes empresas façam sua parte" para compensar os custos que geram. Ainda assim, Wyden acrescentou, referindo-se à nova iniciativa legislativa: "Há muito trabalho a fazer".

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