Teatro Oficina se junta a filho de Glauber Rocha para homenagem que une teatro e cinema

Teatro Oficina se junta a filho de Glauber Rocha para homenagem que une teatro e cinema

São Paulo Pedro Paulo Rocha descreve seu "Glauberamas" como um labirinto dentro da obra de Glauber Rocha (1939-1981), seu pai, cuja morte completa 45 anos. Mistura de filme e teatro, é feito em parceria com o Teatro Oficina e costura recriações de cenas, personagens e atmosferas de diferentes filmes do cineasta, como "Deus e o Diabo na Terra do Sol", "Terra em Transe" e "Barravento". Ensaio de 'Glauberamas', do Teatro Oficina - Divulgação Teatro Oficina Por enquanto, a previsão é de uma única performance neste sábado (22), às 20h, no Teatro Oficina. Em conversa com a Folha, no entanto, Rocha compartilha que gostaria de voltar a apresentar a montagem, que dirige, durante as eleições. "Glauberamas" começa com um cortejo de cangaceiros descendo a Jaceguai, rua do teatro, entoando "o sertão vai virar mar", frase de "Deus e o Diabo na Terra do Sol". Aparece então um exu, entidade mensageira de religiões de matiz africana, que improvisa um rap sobre a memória de Glauber. O papel é do artista paraibano Brabo da Terra do Sol. A partir de um roteiro inicial de Pedro Paulo, a peça segue encadeando episódios criados pelos atores a partir de cenas de filmes de Glauber e outros materiais. Ava Rocha, irmã de Pedro Paulo, também participa do espetáculo. Toda a apresentação é filmada em tempo real para depois circular como filme, que deve ser disponibilizado gratuitamente online nos próximos meses. Pedro Paulo Rocha há tempos trabalha com tensões entre o cinema e a performance ao vivo. O Teatro Oficina, por sua vez, adota a alcunha terreiro eletrônico e há anos utiliza câmeras e transmissões em suas peças. No novo espetáculo, esses dois projetos se encontram e abraçam uma antiga ideia que Glauber Rocha não pôde levar para frente. Em palavras do cineasta, compartilhadas pela produção da peça: "No ano 2000 o espetáculo já mudou. Os cinemas que aí estão não suportarão mais as novas formas cinematográficas. Então se terá que construir centros cinematográficos, que eu chamo de Kynorama. O filme seria projetado em tape, uma espécie de teatro-filme." "O Glauber era muito inquieto, um poeta que está sempre tentando ultrapassar os limites da linguagem", afirma Pedro Paulo. Esta é também uma preocupação do filho, que busca na arte a possibilidade de, mais do que apenas transmitir informações, inventar novas formas de sentir e entender o mundo. "Diante da revolução fascista e violenta em que a gente vive, é preciso que os movimentos criativos busquem uma perspectiva de ruptura e invenção, senão ficamos numa espécie de conservadorismo e reprodução do sistema capitalista", afirma. "Há uma necessidade de produzir novos movimentos no campo da esquerda e da anarquia também, da criatividade." Em busca de criar uma arte que possa escapar da lógica de mercado, ligada a métricas de sucesso e a formatos bem estabelecidos, Pedro Paulo montou um grupo —ou um movimento, como prefere chamar— de dezenas de artistas. Juntos, tiraram o projeto do papel com recursos bastante escassos, segundo o diretor de "Glauberamas". Ele espera que o resultado desse esforço não se resuma a uma única apresentação. Quer que seu movimento cresça e forme uma rede de produção de arte e compartilhamento de conhecimento, ensinando outras pessoas a trabalharem nas zonas de interstício entre o cinema e o teatro. "Isso não pode simplesmente desaparecer, como nos contratos", afirma. Glauberamas Dir.: Pedro Paulo Rocha. Com: Ava Rocha, Brabo da Terra do Sol e Selma Paiva. 180 min. 16 anos. Teatro Oficina - r. Jaceguai, 520, Bela Vista, região central. Sáb. (22), às 20h. Ingr.: R$ 100 em Sympla

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