Tarc�sio reeleito

Tarc�sio reeleito

Pela lógica política convencional, um governador do estado mais populoso e economicamente poderoso do país é candidato em potencial à Presidência da República —ainda mais um reeleito em primeiro turno sem sobressaltos, caso de Tarcísio de Freitas (Republicanos) neste domingo (4). A situação do carioca que recebeu mais de 60% dos votos válidos em São Paulo, contudo, é peculiar. Ele teve a chance de disputar o Palácio do Planalto já neste ano, cortejado do centro à direita para se lançar como alternativa a Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Recusou a missão para não desafiar o padrinho político, Jair Bolsonaro (PL), que lançou o filho Flávio. Em seu primeiro mandato, Tarcísio tentou se equilibrar entre mostras de moderação e de fidelidade ao bolsonarismo. Não se prestou a pregações golpistas, a questionamento das urnas eletrônicas nem a ataques a instituições ou à imprensa. Abraçou, porém, a causa infame da anistia ao ex-presidente condenado por tentar subverter a democracia. Em seus piores momentos na administração, fez avançar bandeiras reacionárias como as escolas cívico-militares —baseadas na ilusão de que a disciplina fardada adotada em estabelecimentos que selecionam seus alunos poderá melhorar o aprendizado em larga escala na rede de ensino. Foi criticado pela truculência da polícia estadual e pela relutância em apoiar a política de câmeras corporais. Soube ceder: passou a apoiar as câmeras e mudou a cúpula da Secretaria de Segurança Pública, o que teve efeito ao menos simbólico. Sua gestão é bem avaliada pelos paulistas. Segundo o Datafolha, 47% a consideram boa ou ótima, ante 21% que a reprovam como ruim ou péssima. O governador do Republicanos soube preservar uma espécie de estabilidade conservadora no estado que remonta à longa hegemonia anterior do PSDB, iniciada em 1995. Berço do PT, São Paulo nunca elegeu um governador da legenda, rejeitada sobretudo no interior —e não foi diferente com Fernando Haddad, ex-prefeito da capital que disputou novamente o Bandeirantes para dar um palanque a Lula. Em 2022, chegou ao menos ao segundo turno contra Tarcísio. Ambos são especulados como presidenciáveis em 2030. O futuro do vitorioso na eleição estadual parece hoje mais sujeito a variáveis, a começar pelo desempenho de Flávio na eleição presidencial. Mais do que não ter firmado uma marca de governo, Tarcísio ainda não tem uma clara identidade política. Seu segundo mandato tende a ser esclarecedor nesse sentido. editoriais@grupofolha.com.br

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