Da periferia paulistana ao centro financeiro na avenida Faria Lima, passando pelas bordas do estado e setores da administração pública, a presença pulverizada do PCC (Primeiro Comando da Capital) persiste como um desafio à espera de solução no segundo mandato de Tarcísio de Freitas (Republicanos). O espalhamento de minicracolândias, os roubos de celulares e a alta na violência contra a mulher completam a vidraça da gestão do governador reeleito. O atual mandatário de São Paulo vai governar o estado por mais quatro anos. Tarcísio garantiu sua reeleição no primeiro turno, projeta o Datafolha, em vitória sobre o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), seu principal adversário. Áreas nas quais o mandato obteve avanços por meio de apostas em parcerias com o setor privado, como o saneamento básico e o transporte sobre trilhos, também reservam expectativas. A avaliação sobre essas agendas dependerá do sucesso da universalização do tratamento de esgoto até 2029, da implantação do trem intercidades entre São Paulo e Campinas e da expansão da rede metroferroviária. O mesmo vale para a requalificação do centro da capital paulista, que inclui a construção da nova sede do governo estadual. Acompanhe na Folha em tempo real a apuração do 1º turno das eleições PCC e segurança A infiltração do crime organizado em múltiplos setores da sociedade é mais que um desafio e assume caráter de ameaça. Investigações apontam indícios de que empresas de fachada operam transporte coletivo, de lavagem dinheiro do narcotráfico nos mercados de combustíveis e imobiliário e de uso de instituições de pagamento como bancos paralelos para a movimentação financeira. Interromper o circuito monetário ilícito requer investigações coordenadas entre agências federais, estaduais e o Ministério Público, além do uso adequado das forças policiais, segundo Sergio Adorno, pesquisador do NEV (Núcleo de Estudos da Violência da USP). Adorno enfatiza que a corrupção de agentes estatais, em especial policiais e encarregados da repressão, é o que viabiliza as facções. "Sem a corrupção, o crime organizado manifesta dificuldades de se movimentar", diz. Paralelamente ao avanço nos negócios ilícitos, o cotidiano da população é impactado pela criminalidade nas ruas e pela violência de gênero. Apenas na capital paulista, os boletins de ocorrência registram uma média diária de 270 furtos e 146 roubos de celulares. Além disso, os feminicídios no estado registraram alta de 20% durante a atual gestão, passando de 142 para 170 casos, enquanto os registros de maus-tratos contra mulheres mais do que dobraram no mesmo período. O enfrentamento da criminalidade passa por questões estruturais, afirma Rafael Alcadipani, professor de segurança pública da FGV. "É urgente melhorar as condições de trabalho dos policiais em geral e a capacidade de investigação da Polícia Civil, blindando a instituição de ingerências políticas deletérias", diz. Na área central da capital, a desarticulação da aglomeração de dependentes químicos na cracolândia deu lugar à dispersão dos usuários em pequenas cenas móveis de uso de drogas espalhadas pela cidade. Ao mesmo tempo, o número de dependentes classificados como de alta complexidade e sob acompanhamento intensivo no centro mais do que dobrou no primeiro semestre de 2026, saltando de 222 para 447 casos. Evitar que o tráfico de drogas continue promovendo a degradação urbana é uma das bandeiras do governador, cujo sucesso depende também da requalificação da região central da capital. É na área estigmatizada pela cracolândia que Tarcísio promete criar o pilar dessa mudança: a construção da nova sede do governo estadual. O empreendimento prevê R$ 6 bilhões em investimentos só na fase de obras, a transferência de 22 mil servidores públicos e o restauro de 17 imóveis tombados. Analistas urbanos apontam que a intervenção precisa assegurar a oferta de habitação popular e a integração com o entorno para evitar que a obra promova apenas o deslocamento da população mais pobre. Transporte No transporte, a implantação do trem intercidades ligando São Paulo a Campinas exige superar entraves como desapropriações e compartilhamento de vias com composições de carga. Ao mesmo tempo, as linhas concedidas de trem e metrô lidam com episódios de falhas operacionais, superlotação e paralisações. Expandir a malha ferroviária também exige fontes estáveis de recursos, diz Ana Patrizia Lira, diretora-presidente da ANPTrilhos (Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos). "O maior desafio será manter o ritmo dos investimentos e garantir que a expansão da malha e os diferentes modos de transporte se traduzam em um sistema realmente integrado", afirma. Para custear projetos, a aposta é o dinheiro rápido que vem das concessões ao setor privado. Isso impõe ao estado a obrigação de melhorar a fiscalização, segundo o conselheiro consultivo da ANPTrilhos Joubert Flores. "Com o aumento da participação de capital privado, é fundamental o fortalecimento do papel das agências reguladoras", diz Flores. Saneamento básico No saneamento básico está a principal aposta na privatização e também a que gera mais cobranças: a desestatização da Sabesp. A companhia precisa atingir 99% de água tratada e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2029 nos 371 municípios atendidos, com aportes superiores a R$ 70 bilhões. Embora o estado registre 97% de cobertura de água e 93% de coleta de esgoto, o índice de tratamento está em 73%. A universalização do saneamento, portanto, depende de investimentos pesados em novas estações de tratamento. Soma-se a isso a necessidade de reduzir as perdas de água de 32% para 25%. Entre os gargalos está a necessidade de redes coletoras e de abastecimento em favelas, palafitas e áreas informais de mananciais sem regularização fundiária. A presidente do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, ressalta a relevância da fiscalização estatal também nesse setor. "O aporte de capital privado só é bom quando tem uma regulação eficiente e é bem monitorado", diz. Nas finanças públicas, o estado encerra a gestão enfrentando uma virada no cenário fiscal. As contas paulistas registraram déficit orçamentário de R$ 12,2 bilhões em 2025, o maior proporcionalmente ao Orçamento desde 1995. Além disso, há uma projeção de saldo negativo superior a R$ 9 bilhões para 2026. Educação A educação pública de São Paulo também dá sinais de alerta. O estado registra uma taxa de alfabetização de crianças na idade certa de 52% na rede pública, situando-se 14 pontos percentuais abaixo da média nacional de 66% apurada pelo Ministério da Educação. Para reverter o quadro, o atual governo fixa a meta de alcançar 90% de alfabetizados na idade certa até 2030, além de expandir o ensino técnico para 60% dos estudantes. No entanto, a implementação dessas diretrizes convive com resistências pedagógicas quanto ao uso intensivo de plataformas digitais e com contestação sobre o modelo de escolas cívico-militares. O Ideb, principal indicador de qualidade da educação do país, também aponta desafios para São Paulo. O estado obteve no ano passado uma média de 4,3 para o ensino médio —um leve aumento em relação a 2023, quando era de 4,2, mas ainda abaixo do índice alcançado em 2021, de 4,4. Em 2015, a rede estadual paulista ocupava o primeiro lugar entre as redes públicas do país. Desde então, a cada edição do Ideb tem tido seu resultado superado por mais estados. Em 2025, ficou na décima posição. Em 2023, estava em oitavo.
Tarc�sio 2 ser� desafiado por PCC, feminic�dios e resultado de privatiza��es
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