O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que esteja no radar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a proposta de tabelamento de juros, que consiste na definição de uma espécie de teto para a taxa Selic, em conformidade com o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). A fala ocorre após reportagem da Folha mostrar que integrantes do governo afirmaram que existe a tentativa de agendar uma reunião de Lula com economistas que possam trazer visões diferentes para a solução do problema fiscal. Entre elas, estaria uma proposta do economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, para reduzir a taxa Selic por meio de um novo arranjo entre as políticas fiscal e monetária. O plano passa também pela criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que definiria metas em conjunto para um horizonte de quatro a cinco anos. "Nenhuma dessas ideias como tabelamento de juros está na mesa do presidente", disse Durigan neste domingo (1º). "Não há nenhuma reunião agendada entre o presidente e Lara Resende. Há uma série de economistas que se colocaram à disposição para colaborar, em contato com Aloízio Mercadante [presidente do BNDES], mas não há encontro previsto." À Folha, Mercadante também afirmou que não há agenda prevista entre o economista e o presidente Lula, nem discussão dentro do governo sobre a proposta. "A equipe econômica está trabalhando dentro da total transparência e previsibilidade. Essa proposta não está no governo", disse. Na proposta de Lara Resende, o Banco Central se comprometeria a manter a Selic entre a meta de inflação (3%) e o crescimento nominal potencial do PIB (cerca de 5,5%) —para começar, reduziria a Selic gradualmente ao longo de 12 meses para 7,5%, com uma margem de segurança de 2 pontos em relação ao PIB potencial. O presidente do PT, Edinho Silva, criticou especulações na área e defendeu que as manifestações oficiais sobre a economia do governo cabem apenas a Durigan. "As especulações na área econômica não colaboram com o país e só fazem o jogo dos especuladores, dos oportunistas do mercado, daqueles que apostam contra o governo Lula, contra o futuro do país. O único que fala em nome do governo Lula na política econômica é o ministro Dario Durigan", disse. Lula já criticou publicamente a autonomia do Banco Central e a alta taxa de juros, com cobranças reiteradas ao presidente do BC, Gabriel Galípolo, para que a Selic fosse menor. Diferentes matizes já cobram que o próximo governo Lula apresente uma agenda fiscal crível. A ansiedade em torno dessa definição também catalisou discussões sobre quem será o ministro da Fazenda no Lula 4. Um dos nomes mais citados é o do matemático Rafael Fonteles, governador do Piauí. Lara Resende defende há anos que o problema fiscal do Brasil está nos juros, e não no gasto primário (que exclui os juros), e retomou a tese em artigo publicado no fim de setembro. A Selic elevada faz os encargos da dívida crescerem a um ritmo que a produção de riqueza do país não consegue acompanhar. Para ele, é isso que explica a trajetória explosiva da dívida pública brasileira. A dívida bruta, hoje, está em 82,9% do PIB, o maior nível desde 2021. Como mostrou a Folha, equilibrar essa conta exigiria um ajuste de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos. Para Lara Resende, a saída está na outra ponta e passa por uma espécie de "tabelamento" da taxa Selic, hoje em 13,75% ao ano e em dois dígitos desde 2022. A ex-ministra Gleisi Hoffmann compartilhou em suas redes sociais o artigo em que Resende trata da proposta. No X (antigo Twitter), ela disse que o texto é fundamental para enfrentar uma "ofensiva terrorista" sobre a política fiscal brasileira. A simples avaliação da ideia já provocou apreensão no mercado financeiro. Ao mesmo tempo, economistas alinhados ao PT são contra a proposta de Lara Resende e entendem que a simples divulgação de que o governo está cogitando avaliar a proposta cria um ruído desnecessário. Integrantes da equipe econômica conversaram com o presidente neste domingo diante da repercussão negativa entre agentes do mercado sobre as notícias de que Lula se reuniria com Lara Resende. A preocupação com o rumo das contas públicas levou aliados do petista a defenderem a antecipação da definição da equipe econômica do quarto mandato, para enviar sinalizações mais concretas ao mercado e conter a alta do dólar observada nesta semana após o resultado do segundo turno.
Tabelamento de juros n�o est� na mesa de Lula, diz ministro da Fazenda
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