Os israelenses vão às urnas pela primeira vez desde o maior ataque terrorista da história de seu país. À sombra do 7 de Outubro, que cravou uma inflexão na política interna de Israel há três anos, os pouco mais de 7 milhões de eleitores aptos a votar escolhem na terça-feira (27) o novo Parlamento, do qual sairá o próximo governo. Em jogo estão a preocupação com o custo de vida, a condução das políticas de segurança nacional, a cobrança por uma investigação quanto à resposta ao ataque terrorista do Hamas e as regras de alistamento militar dos ultraortodoxos. O pleito ocorre depois de três anos de guerra em Gaza e de confrontos com o Líbano e o Irã, em uma sociedade atravessada por divisões anteriores ao conflito. Em pesquisa divulgada na sexta-feira (23) pelo Canal 12, 21% dos entrevistados apontaram a economia e o custo de vida como o principal fator de influência sobre seu voto. Outros 17% citaram o alistamento militar e a igualdade de obrigações, 14% mencionaram as falhas de segurança de 7 de Outubro, 13%, a segurança pública, e 10%, a guerra com o Irã. A reforma do Judiciário e a polarização social foram escolhidas por 9% e 8%, respectivamente. "A eleição pode ser considerada um referendo sobre Binyamin Netanyahu, mas não tanto sobre o 'netanyahismo', especialmente na área de segurança", afirma à Folha o cientista político Karabekir Akkoyunlu, professor visitante na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e pesquisador associado à Universidade de Oxford. Segundo ele, há divergências sobre quem deve responder pelas falhas do ataque terrorista: o primeiro-ministro, as Forças Armadas ou outras instituições do Estado. Premiê com mais tempo no poder da história de Israel, Netanyahu tenta permanecer no cargo à frente do Likud. Desde dezembro de 2022, o partido de direita governa com apoio de legendas religiosas e de extrema direita, embora a controvérsia sobre o alistamento militar tenha provocado rupturas. O premiê e sua trajetória de mais de 19 anos acumulados no cargo convivem com críticas pela resposta aos ataques do Hamas e com um julgamento por corrupção, no qual ele nega qualquer irregularidade. O principal nome cotado como adversário é Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e líder do partido Yashar (Íntegro), criado em 2025. Depois de 41 anos de carreira militar, integrou como observador o gabinete de guerra de Netanyahu, mas deixou o posto oito meses depois, em desacordo com a condução do conflito. Perdeu no combate em Gaza um filho e dois sobrinhos. A oposição a Netanyahu inclui ainda o ex-premiê Naftali Bennett e Yair Lapid, unidos no B'Yachad (Juntos), Avigdor Lieberman, do Yisrael Beiteinu (Israel, Nossa Casa), e Yair Golan, dos Democratas. Embora os quatro partidos tenham firmado um acordo de cooperação para retirar Netanyahu do poder, mantêm divergências que podem dificultar a composição de uma nova coalizão. "A oposição não é um campo da paz", afirma Akkoyunlu. Para o professor, as diferenças em relação a Netanyahu são mais evidentes na condução política e diplomática dos conflitos do que em seus objetivos centrais de segurança. Ele avalia que o eleitorado judeu israelense se deslocou à direita desde 2023, sobretudo na rejeição a um Estado palestino. No debate interno, a reforma do Judiciário, alvo de grandes manifestações antes da guerra, ainda divide os partidos. Também ganhou força a controvérsia sobre a dispensa do serviço militar para homens judeus ultraortodoxos, que provocou atritos na coalizão de Netanyahu após anos de mobilização de reservistas. A oposição à isenção é uma das bandeiras do Yashar, de Eisenkot. Segundo o Canal 12, as prioridades dos eleitores variam conforme a preferência política: entre os da oposição, 28% apontam as falhas do 7 de Outubro como principal preocupação, seguidas pelo alistamento militar (27%). Já entre os apoiadores do governo, a guerra com o Irã lidera (21%), seguida por economia e reforma judicial, ambas com 18%. A escolha dos israelenses, no entanto, não será diretamente por Netanyahu, Eisenkot ou qualquer outro candidato. Os cerca de 7,3 milhões de eleitores votam em listas partidárias, com distribuição proporcional de cadeiras entre aquelas que obtêm ao menos 3,25% dos votos —esta é a chamada cláusula de barreira. O Knesset tem 120 assentos, e a maioria absoluta corresponde a 61 parlamentares, mas nunca um partido sozinho conseguiu essa marca. A última pesquisa do Canal 12 antes da eleição atribui 23 cadeiras ao Yashar, de Eisenkot, e 21 ao Likud, de Netanyahu. A projeção aponta 56 assentos para os partidos sionistas de oposição e 50 para os aliados do atual premiê, deixando os 14 restantes com as listas árabes. Nenhum dos dois possíveis blocos alcançaria sozinho a maioria necessária para governar. O mesmo levantamento aponta que Eisenkot é o favorito de 44% dos eleitores, ante 38% que dizem apoiar Netanyahu no cargo. O impasse dá aos partidos menores um peso que supera sua expressão real nas urnas. Na atual coalizão, essa influência cabe especialmente aos ultraortodoxos e à extrema direita dos ministros Itamar Ben-Gvir (Segurança Nacional) e Bezalel Smotrich (Finanças). A continuidade dessas alianças é central para a manutenção do atual governo e assim deve permanecer em um possível novo mandato de Netanyahu. As 14 cadeiras projetadas para a Lista Conjunta e o Ra'am (Lista Árabe Unida), porém, também podem decidir o futuro do país. Diferentemente dos palestinos sem cidadania israelense que vivem em Gaza e na Cisjordânia ocupada, os cidadãos árabes de Israel têm direito ao voto. A Lista Conjunta, liderada por Yousef Jabareen, coloca a questão palestina no centro de seu programa. O Ra'am, de Mansour Abbas, concentra-se também nas demandas cotidianas da população árabe, como a criminalidade. Essas preocupações devem se refletir nas urnas. Segundo o Canal 12, 65% dos eleitores dos partidos árabes apontam a segurança pública e o combate à criminalidade como principal fator de influência sobre seu voto, enquanto 24% citam a economia. Abbas já demonstrou disposição para negociar com partidos sionistas. Em 2021, o Ra'am participou do governo de Bennett e Lapid, que afastou Netanyahu do cargo até 2022. Nas últimas semanas, o líder árabe disse à agência AFP que uma nova vitória do premiê seria uma "catástrofe" e, como esperado, descartou apoiá-lo. Eisenkot, por sua vez, rejeita uma coalizão com as legendas árabes. Para Akkoyunlu, elas podem ser fundamentais para uma mudança de governo, embora a oposição judaica esteja menos disposta a negociar com elas. Uma saída seria o apoio externo a um governo minoritário —as legendas poderiam sustentá-lo no Parlamento sem integrar formalmente a coalizão. Outra hipótese, a de um governo de unidade nacional entre adversários, é considerada pouco provável pelo professor. "É difícil imaginar que tipo de acordo levaria a um governo assim, considerando que o fator que une a oposição é a posição contrária a Netanyahu", afirma. Encerrada a votação, o presidente de Israel, Isaac Herzog, consultará os partidos e encarregará um parlamentar de formar governo —não necessariamente o líder da lista mais votada. O indicado terá inicialmente 28 dias, prorrogáveis em até 14; se fracassar, a legislação prevê outras tentativas antes de uma eventual nova eleição. Até que um novo governo obtenha a maioria dos votos em uma votação de confiança no Parlamento, o atual permanece no poder. Para Akkoyunlu, "a consequência mais imediata de uma possível derrota de Netanyahu seria provavelmente doméstica, e não internacional", com a redução da influência da extrema direita e possíveis mudanças na relação com o Judiciário. Uma nova liderança pode melhorar o diálogo diplomático com os Estados Unidos e a Europa, "mas, fundamentalmente, as questões estruturais e a estratégia em relação à Palestina, ao Irã e ao Líbano não mudariam", diz o pesquisador.
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