Soci�logo Gabriel Feltran � o novo colunista da Folha

Soci�logo Gabriel Feltran � o novo colunista da Folha

O sociólogo Gabriel Feltran, 50, passa a integrar o quadro de colunistas da Folha a partir desta semana. Ele publicará textos quinzenais, com estreia nesta segunda-feira (3). Paulistano, Feltran se tornou um dos pesquisadores mais respeitados na área de estudos sobre crime organizado e violência no país. Seu trabalho trouxe ao debate público novas maneiras de enxergar o mundo criminal, especialmente no que diz respeito à facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). Ele foi um dos pioneiros na análise do papel da facção na redução dos homicídios no estado de São Paulo —relatando como, após surgir dentro dos presídios, o PCC passou a atuar como regulador de condutas e da violência em vários territórios urbanos, estabelecendo regras e os "tribunais do crime". Fez também parte do grupo de pesquisadores que apontou como políticas governamentais fortaleceram o crime organizado, facilitando o recrutamento de novos integrantes da facção a partir do encarceramento em massa e da violência estatal. Em seu livro "Irmãos: uma história do PCC", publicado em 2018 pela Companhia das Letras (e que deu origem a uma minissérie documental da HBO Max), Feltran argumenta que a organização funciona não como um cartel de drogas convencional, nem como uma empresa ou um comando militar, mas, sim, como uma irmandade secreta. "Uma rede de apoio mútuo, pautada por um conjunto de valores considerados justos, em que ninguém deve atravessar os negócios nem a honra do outro irmão", descreve a apresentação do livro. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Ele também escreveu "Fronteiras de tensão: política e violência nas periferias de São Paulo" (Editora Unesp, 2011), resultado de sua tese de doutorado, e outros dois livros que ainda não têm edições no Brasil: "The Entangled City: crime as urban fabric in São Paulo", da Manchester University Press e "Stolen Cars: a journey through São Paulo's urban conflict", da editora Wiley. Hoje, ele é professor da Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris) e diretor de pesquisa no CNRS (Centro Nacional da Pesquisa Científica da França). Segurança pública será, inevitavelmente, o tema preponderante de suas colunas. Ao discutir um país no qual policiais e oficiais do Exército ascenderam a alguns dos cargos mais importantes da República, ele também deve dissecar as relações entre violência e política. "O que eu não quero fazer é uma coluna partidária", diz Feltran. "Mas evidentemente tem que se fazer a crítica do populismo penal e do nível de violência das nossas forças de segurança." Se a necessidade surgir, ele afirma, a coluna também poderá servir como contraponto do noticiário policial que reproduz de forma acrítica declarações oficiais e banaliza mortes. De alguma forma, o trabalho acadêmico de Feltran se conecta com a vivência que ele teve como jovem na periferia de São Paulo. Quando nasceu, sua família morava no Parque Continental, bairro que faz divisa com o município de Osasco, na zona oeste da capital paulista. A região onde ele morava está próxima a favelas e também a poucos quilômetros do principal campus da USP (Universidade de São Paulo), a Cidade Universitária. Estudou em escola pública até a 8ª série, quando seus pais conseguiram matriculá-lo em um colégio particular em Pinheiros. Essa vivência em realidades distintas marcou sua formação. Ele conhecia estudantes ricos da zona oeste e também jogava futebol com amigos das favelas do Morrão e de Presidente Altino, perto de sua casa. "Quando a polícia baixava [no bairro], os meninos da favela todos já levantavam a camisa e para mostrar que não estava armados. E a polícia não olhava para nós, que éramos branquinhos, entendeu?", ele conta. Percepções como essa, assim como aquelas coletadas no trabalho de campo ao longo de décadas, devem permear os textos que chegam aos leitores da Folha.

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