S�nchez � exce��o em Europa que trata derrota de Trump com cautela

S�nchez � exce��o em Europa que trata derrota de Trump com cautela

"Isso aconteceu no Brasil. Acabou de acontecer nos EUA. E acontecerá em breve na Espanha." Poucos na Europa usaram o tom efusivo de Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol, diante da derrota eleitoral de Donald Trump. A cautela prevaleceu diante do fato de que o presidente americano continua senhor da política externa de seu país. Sánchez é a exceção porque, além de ser a voz mais crítica do continente às ofensivas de Trump nas áreas comercial, ambiental e em política imigratória, também enfrenta uma campanha eleitoral com prognósticos ruins. Em 29 de novembro, eleições parlamentares devem tirar o socialista do poder após mais de oito anos, indicam pesquisas. Até por isso, Sánchez usou tons fortes em mensagem sobre o assunto no X. "Ontem, a sociedade norte-americana votou contra as políticas que só empobrecem. Contra o ódio. Contra o machismo. Contra o negacionismo climático e contra os privilégios das elites." Foi uma exceção. Líderes do continente tiveram reações contidas ou nem se manifestaram. "Os resultados não são questionáveis nem estão sendo questionados. O próprio presidente dos EUA admitiu e reconheceu o excelente desempenho dos candidatos democratas. Trata-se, portanto, de uma notícia muito boa para a democracia americana", declarou Jean-Noël Barrot, ministro de Relações Exteriores da França. Andy Burnham, primeiro-ministro do Reino Unido, afirmou que o resultado das eleições deveria fazer os países se "unirem" para combater o custo de vida, a principal bandeira de seu governo. Na Alemanha, a maior patente do governo Friedrich Merz a se pronunciar sobre as eleições americanas nesta manhã foi o ministro da Defesa, Boris Pistorius. Ainda assim, em termos observacionais, do tipo "vitória histórica dos democratas", "depende do que o presidente americano vai fazer agora" etc. A escolha de palavras se baseia, evidentemente, no fato de que Trump vai ficar mais dois anos no poder. Apesar do tsunami azul no Congresso, os democratas estarão longe de uma maioria de dois terços capaz de derrubar votos do presidente ou mesmo de impedi-lo. No caso europeu, o presidente americano continuará decisivo nos dois fronts que mais pesam sobre o continente, a guerra comercial deflagrada em seu segundo mandato, que feriu países exportadores como a própria Alemanha e a Espanha, e a guerra da Ucrânia. Enquanto os americanos votavam, na terça-feira (3), Merz recebia Volodimir Zelenski pela quarta vez em 18 meses de mandato. Uma maneira nada sutil de reafirmar o apoio alemão a Kiev em um momento em que a ambiguidade de Trump no conflito se confunde com sua ambição de baixar os preços dos combustíveis nos EUA com diesel da Rússia. Há quem veja até uma Europa mais confortável, a partir de agora, no debate sobre um cessar-fogo ou mesmo no processo de pacificação na Ucrânia. A cautela nos comentários desta quarta-feira, porém, mostra que essa crença não é tão generalizada, provavelmente porque o histórico de Trump não ajuda. Resta aos presidentes em fim de mandato, sem poder no Congresso, os chamados "patos mancos", exercer com mão de ferro a política externa, um dos poucos campos em que os poderes do mandatário continuam plenos. Resta saber qual prato estará no cardápio de Trump além da Ucrânia —um recrudescimento na guerra com o Irã, opção complicada, ou, por exemplo, complementar a interferência em Cuba. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Geopolítica à parte, a derrota do republicano por si só complica as narrativas da extrema direita europeia, que há anos se espelham no movimento Maga. "É verdade que a intervenção dos EUA no Irã teve um impacto muito forte na economia dos EUA, mas também na economia europeia", afirmou Jordan Bardella, líder da Reunião Nacional, partido de Marine Le Pen, na manhã desta quarta-feira. Bardella lembrou que Le Pen lidera as pesquisas de intenção de voto na França e que os insucessos da direita e da extrema direita em países como Brasil, Sérvia, Hungria e agora nos EUA não servem como prognóstico para a eleição presidencial de 2027. Se servem para a Espanha, é uma pergunta que os eleitores do país responderão neste mês. "A onda extremista na qual [Alberto Núñez] Feijóo e [Santiago] Abascal pretendem se aproveitar já não cresce mais, está desmoronando", escreveu Sánchez, citando seus principais rivais.

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