Uma das áreas do audiovisual que mais demanda atenção hoje –seja pela escassez de recursos, pelas condições de trabalho ou pela incerteza quanto a direitos autorais– está prestes a ter um de seus problemas parcialmente resolvido. Em mesa do Rio Market, ala do Festival do Rio que concentra conversas e negociações do setor, na manhã desta terça-feira, a Abra, a Associação Brasileira de Autores Roteiristas, anunciou que está documentando e disponibilizando scripts de produções brasileiras na internet, por meio de uma plataforma batizada de Roteiroteca. A ideia é que textos de longas, curtas e séries produzidos no país fiquem disponíveis de forma gratuita na internet, bem como informações pertinentes a essas produções, sanando, assim, um impasse histórico de preservação e disponibilização de roteiros. Para Andrea Yagui, diretora de formação da Abra, o cinema e a televisão no Brasil costumam ser debatidos a partir do produto final —ou seja, o filme ou a série—, atropelando a etapa de desenvolvimento do roteiro, um documento que passa por diferentes versões ao longo da produção. "O roteiro costuma ser tratado como uma etapa de passagem. Ele é importante, mas desaparece quando a obra é lançada. A Roteiroteca vem para dizer o contrário, que o roteiro é importante como obra em si", diz ela. "É um texto que precisa funcionar em diversas dimensões —é um guia técnico, é uma obra artística, é uma peça de venda, porque muitas vezes é o que garante financiamento para um projeto. Então não é um texto fácil de escrever. Ler um roteiro é muito diferente de ver uma obra audiovisual pronta." Para a criação dessa biblioteca de roteiros, foi preciso um trabalho longo de negociação com os detentores dos direitos autorais, bem como de edição. Hoje, há cerca de 20 voluntários, sob coordenação de Yagui, revisando e publicando os documentos na Roteiroteca. Entre os longas que estão presentes na plataforma nesta estreia estão "A Viagem de Pedro", escrito por Laís Bodansky, "Kasa Branca", de Luciano Vidigal, "O Lobo Atrás da Porta", de Fernando Coimbra, e "O Dia que Te Conheci", de André Novais de Oliveira. Entre os curtas, há o premiado "Amarela", de autoria de André Hayato Saito, entre outros. Séries são mais escassas, por enquanto. Há três delas disponíveis na biblioteca, com roteiros de diversos episódios —"O Dia que a Minha Vida Mudou", "Osmar, a Primeira Fatia do Pão de Forma" e "Trago a Pessoa Amada". Por ora, as produções são, em geral, dos últimos dez anos, mas a ideia é ampliar o acervo num trabalho contínuo, buscando também clássicos da cinematografia brasileira para integrá-lo. O trabalho nesses casos, porém, é mais difícil. "Obras contemporâneas são mais acessíveis. Elas já estão digitalizadas e a cadeia de liberação é clara e direta. As produtoras ainda estão operando, os contratos estão salvos, os autores estão vivos. As antigas são um desafio maior, mas é uma próxima fase", diz Yagui, que destaca a dificuldade enfrentada por pesquisadores, docentes e estudantes do audiovisual no acesso a roteiros. Catalogar os roteiros, porém, pode gerar um novo problema numa internet dominada pelo rápido avanço da inteligência artificial —que, no audiovisual, tem justamente nos roteiristas algumas de suas presas mais fáceis. Questionada se a publicação dos textos pode ajudar a treinar os robôs, capacitando-os ainda mais, Yagui diz que várias medidas de segurança foram tomadas com esse intuito. Além de avisos explícitos no site e nos arquivos de roteiro, alertando o usuário sobre direitos autorais e proibindo o uso do material para treinar ou desenvolver plataformas de IA, há ainda um sistema de verificação, no acesso de cada texto, para dificultar a coleta automatizada de informações, e outro que barra os principais robôs de treinamento do mercado. Agora, o plano é expandir a Roteiroteca, num trabalho contínuo. Além de buscar textos mais antigos, Yagui também mantém conversas com canais de TV e serviços de streaming, que hoje concentram boa parte da produção de narrativas serializadas. "Essas conversas caminham em outro ritmo, exigem mais níveis de aprovação. Elas estão em estágios iniciais, mas esse conteúdo tem toda a nossa atenção." Autores, produtores e outros interessados em fazer a doação de seus materiais de roteiro podem entrar em contato com a plataforma pelo email roteiroteca@abra.art.br. O jornalista viajou a convite do Festival do Rio
Site Roteiroteca vai reunir textos de filmes e s�ries brasileiros de forma gratuita
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